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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Relato da última sessão

DE QUE NOS VAMOS RIR PARA O ANO?

Nuno Costa Santos perguntou a quem estava sentado à mesma mesa que ele: «O que é que vos fez rir nos últimos tempos, na última semana, o que é que vos fez rir hoje?». Ferreira Fernandes, jornalista e conhecedor do humor na óptica de quem o utiliza, referiu o que passou despercebido nas comemorações do 25 de Abril: o discurso do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, e de como ele citou a auto-biografia do actual PR, Cavaco Silva, que teria «saltado de alegria» em 1974. Rui Tavares respondeu que ainda agora tinha sorrido com ironia depois de saber que um historiador, ele próprio, estava ali para falar sobre o futuro do humor. Nuno Artur Silva confessou que ainda não se tinha rido no dia do «É a cultura, estúpido!», apesar do humor ser a matéria com que trabalha e considerou que as respostas dadas se situavam na fronteira do que é e não é humor.

Afinal, onde começa e acaba o humor? Para Nuno Artur esta generalização faz com que tudo pareça fazer parte de uma indústria de entretenimento geral e Nuno Costa Santos partilha da mesma sensação: «não há maior exclusão social do que não ter humor, quem não tem sentido de humor deixa de ter vida pessoal, sentimental, sexual, vivemos no mundo raso da sociedade humorística em que o cómico se torna obrigatório». Rui Tavares acha que os limites do humor são amovíveis, gasosos, o que nos faz viver como se houvesse dois modos de funcionar: com humor e sem humor. «O humor que está na berra é o das piadolas», considera Ferreira Fernandes, «os portugueses riem-se das pessoas que estão abaixo de si próprios; em Portugal, as piadas são sobre estas pessoas», excepção feita ao Contra-informação e Inimigo Público, «que têm os políticos como alvos». A Ferreira Fernandes responde Nuno Artur Silva, director das Produções Fictícias, que assinam os dois projectos, comentando que provavelmente os poderosos já não são os políticos, mas os futebolistas, economistas, «os políticos são dos mais inofensivos da classe do poder». E responde também Rui Tavares, constatando que rir da desgraça alheia é um traço humano e não propriamente português, «quando alguém tropeça na rua, a partir do momento em que se guarda alguma distância que torna impossível ajudar quem caiu, a partir do momento em que se baixa a guarda da humanidade, podemos rir-nos da situação». Acrescenta o historiador que os limites sociais do humor são consensuais, há sempre a possibilidade de alguém não ter percebido, ou de ter percebido e não ter achado graça. Nuno Artur Silva explica de outro modo: o humorista é o humorista e as suas circunstâncias, a mesma frase dita num contexto diferente ou de modo diferente pode não ser engraçada. Como aliás aconteceu com a piada de Woody Allen repetida por Ferreira Fernandes perante a silenciosa audiência do S. Luiz, conforme o próprio acabou por verificar. Acrescenta ainda Nuno Artur que Woody Allen, desde os primeiros filmes, foi deixando de fazer humor puro e duro, numa sucessão de gags hilariantes, e ganhando a vontade de contar histórias pontuadas por humor. «É a diferença entre comer açúcar à colher ou doces confeccionados.»

Há pouco mais de um mês, o Gato Fedorento ganhou honras de horário nobre no canal generalista do Estado. Nuno Costa Santos acha que este destaque corresponde a uma alteração do tipo de humor que faz rir os portugueses. No entanto, pergunta, «o que sobrevive melhor: o registo do Gato Fedorento ou dos Batanetes?» Para Ferreira Fernandes, o sucesso do programa está em trazer para a televisão, o que não está lá, muito menos nos jornais: o povo. Seja lá o povo quem for. Nuno Artur Silva discorda, «o povo já está na televisão, somos todos nós». Além disso, segundo o agente provocador, de um ponto de vista técnico já não há canais generalistas, «a televisão está segmentada em televisão para pobres e os que têm um pouco mais», cada vez há menos espaço para fenómenos como o Gato Fedorento, um caso isolado.

«Haverá um humor de esquerda e um humor de direita?» Nuno Costa Santos não quis deixar de colocar uma questão política. Ninguém lhe respondeu muito convictamente, mas a pergunta serviu para virar o debate para o polémico tema dos limites do humor, relançado recentemente com a publicação das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês. Rui Tavares, acérrimo defensor dos limites para além do bom-senso, começou por referir a confusão entre os limites sociais e legais do humor (estes não são exclusivos do humor, mas de qualquer discurso). Além destes, há ainda os limites éticos que não coincidem necessariamente com os anteriores. Quanto aos cartoons da polémica, o historiador considera que a resposta dada pela Direita, de que a sátira não pode ter limites, foi mal argumentada. E ainda chamou a atenção para a fragilidade dos «limites do bom senso» - que têm que ser definidos por alguém.

A este propósito, Ferreira Fernandes conta que em 1991 fez uma piada sobre a morte de um militar de alta patente na marginal, na mesma semana do envio de tropas portuguesas para a Guerra do Golfo. Hoje não repetiria a piada, mas também não admitiria que ninguém o impedisse de a fazer. Ferreira Fernandes acha que tem o direito de fazer humor com o que quer que seja e, inspirado por essa convicção, conta como todos os dias passava por um graffiti que dizia «se deus existe, o problema é dele», confirmando assim a sua própria liberdade de expressão. Para Rui Tavares as pessoas que negam os limites do humor estão a desvalorizar as palavras e a prestar um mau serviço à liberdade de expressão. «O bom senso não tem boas mãos», diz Rui Tavares. E não é o único, acrescenta, relembrando que foi John Stuart Mill quem disse que não se pode gritar «fogo!» num teatro cheio de gente, a liberdade de expressão não pode ser assim tão elástica.

Obviamente em desacordo com Rui Tavares, Ferreira Fernandes acha que assim sendo, o futuro do humor aconteceu há duas semanas em Belleville, Paris, onde um grupo de bobos (bourgeois-bohèmes, burgueses boémios) foi atacado por jovens muçulmanos depois de ter publicado, num café, cartazes anti-deus. Ferreira Fernandes está do lado dos bobos, «custou-nos muito a chegar aqui». Rui Tavares não concorda com a dicotomia em que parece que fomos colocados: ou se proíbe a ofensa, ou nos ofendemos todos. E concluiu que o argumento do bom senso é inconsistente já que depois dos cartoons houve ameaças gravíssimas à liberdade de expressão que passaram despercebidas. Exemplos não devem faltar e Rui Tavares convidou os presentes a compararem os resultados de uma pesquisa da entrada «Tiananmen», no google.com e no google.cn (chinês). [Experimente também o leitor.] A Ferreira Fernandes não faz confusão a censura de conteúdos na Internet, a verdade é que pode passear no bairro chinês de Paris com uma t-shirt onde se leia «Cristo é feio» e não pode fazer o mesmo em lado algum se em vez disso se ler «Maomé é feio». Voltando ao bom senso, que a partir de certa hora falou-se mais de bom senso do que de boas gargalhadas, Rui Tavares ripostou que «numa comunidade politicamente organizada, o lugar do bom senso não é estar na lei, é estar nas atitudes: ofender interminavelmente ou ofender um bocadinho. Eu prefiro a segunda, e isso é uma questão de bom senso.»

Para fechar a conversa, Nuno Costa Santos perguntou pelos grandes temas do humor no futuro. «Humor é reconhecimento, as pessoas riem-se daquilo em que se reconhecem», foi a resposta de Rui Tavares que acrescentou: «em Portugal as piadas são sobre sexo e futebol, mas o espaço de liberdade tem estado a aumentar, já se goza com Fátima». Nuno Artur Silva relembrou a polémica do sketch que as Produções Fictícias escreveram para o Herman José sobre a Última Ceia. Foi em 1999, e a única coisa que Nuno Artur lamenta é que o sketch fosse mau. Nessa altura não se podia gozar com Fátima nem com o PCP, quem o dizia era Herman. Um ano depois as Produções assinaram um outro sketch sobre Fátima e este passou sem problemas. «De uma piada sobre futebol pode resultar uma ameaça de morte, mas a religião neste momento não suscita o mesmo interesse», diz Nuno Artur, que sabe bem quem se incomoda com o humor que se faz em Portugal, onde, segundo o especialista, neste momento é mais fácil fazer uma piada sobre Cristo do que sobre Maomé, apesar da confissão religiosa dominante. E foi assim que saímos do São Luiz, com a ideia de um futuro incerto para o humor em Portugal, que não sabemos onde pode começar e acabar, e que vai dominando todas as conversas, como se fosse uma obrigação social.

[Margarida Ferra]
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