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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

abrigos (3)

terça-feira, maio 30, 2006
«Walter Benjamin foi o pensador da cidade, o escritor que a considerou o cerne de toda a reflexão sobre a História e sobre a cultura moderna. De um modo também pouco sistemático e fragmentário foi Roland Barthes, nomeadamente o Barthes das "Mitologias" quem, a partir dos ícones da cidade ("A Cheia não inundou Paris", "O Bife e as Batatas Fritas", "O Novo Citroen", "O Plástico", "No Music Hall", etc.), analisou o modo como a linguagem instituiu uma certa maneira de ser cosmopolita. De outra forma, numa escrita sempre passional, Marguerite Duras escreveu no Verão de 1980, para o jornal Libération, um conjunto de crónicas sobre episódios ocorridos em Paris durante um período específico de tempo. Sobre literatura e cidades seria aliás infindável a lista de relações e de obras escritas: de Cesário Verde a Italo Calvino, de Nelson Rodrigues a José Cardoso Pires.»

António Pinto Ribeiro, «abrigos - condições das cidades e energia da cultura», Cotovia, 2004.

Babilónia, Amadora

Proibida permanência nos corredores.
No Centro Comercial Babilónia circulamos - sempre - por um dédalo de corredores apertados, muito concorridos e com mais de uma centena de estabelecimentos comerciais ao nosso serviço. Snacks, lojas de alta fidelidade, centros de cópias e sociedades de mediação mobiliária constituem a maior oferta. Na "Dreamhouse" encontrámos apartamentos à venda em Massamá, Queluz, Cacém, Rinchoa, Mira Sintra e, claro, na Amadora, onde se encontra este bazar moderno, mesmo junto à estação ferroviária. Oferecem-se "óptimos negócios", com vista panorâmica, TV Cabo e soalhos flutuantes, uma estranha fixação dos subúrbios. Os preços são embatíveis, os móveis lacados e os armários em mogno. Seguindo viagem, os mapas do Babilónia esclarecem-nos sobre o seu sistema de combate a incêndios - que inclui numerosos detectores de fumo, botoneiras manuais e extintores de pó químico - mas não sobre a nossa posição. A custo, e após alguns desvios, damos com a sua praceta esplanada por entre máquinas de fotos tipo-passe, observamos uma agitação. Inaugurado há mais de quinze anos, o Centro é um sobrevivente da era anterior aos titânicos shoppimg malls. Durante o Natal continua a não haver sítio mais concorrido nas redondezas.


De «Cimêncio» *, de Diogo Lopes e Nuno Cera, publicado pela Fenda, em 2004.

* cimêncio, s.m. (do lat.coementu por aglutinação com do lat. silentio). Sono profundo dos arredores. | Construção imaginária; matéria-prima do espiríto. | Estado calcário que indicia conjuntura de tranquilidade. | Mistura feita de cal e mistério, impermeável ao tempo. | União íntima; pausa fundamental. | Suspensão de base ou fundamento.

abrigos (2)

segunda-feira, maio 29, 2006
Cidades erguem-se dentro de cidades. As Petronas Twin Towers em Kuala Lumpur albergam, nos seus 450 metros de altura, 60 000 pessoas e prevê-se em Tóquio a construção de uma Ecopolis com 1000 metros de altura e uma capacidade de ocupação da ordem dos 100 000 habitantes. A relação com a natureza altera-se: depois de ter sido expulsa do espaço urbano pela azáfama urbanista dos anos 70, regressa e parte deste começa a ser destinada a zonas naturais, mais ou menos regradas - 20% dos vegetais consumidos em Buenos Aires são produzidos em quintas dentro da própria cidade e, em Amsterdão, existem cerca de 20 000 hortas particulares.

António Pinto Ribeiro, «abrigos - condições das cidades e energia da cultura», Cotovia, 2004.

Press Release

Flanar é o verbo do próximo «É a Cultura, Estúpido!». A cidade, com a sua multidão anónima, a sua tipologia incerta, o seu futuro invisível, é o lugar desta viagem. Manuel Graça Dias, arquitecto, pensador, leitor do espaço da cidade, e Delfim Sardo, agente cultural, intérprete de arte contemporânea, interveniente na cidade por essa via, são os convidados do mês.
Como serão as cidades do futuro? Caminhos possíveis são apontados na próxima edição do «É a cultura». Anabela Mota Ribeiro faz a moderação da conversa e Daniel Oliveira irrompe em diferentes cruzamentos como agente provocador. Baudelaire, que considerava a cidade um lugar intermédio entre o céu e o inferno, também estará presente. Bem como a cidade mítica que Ridley Scott compôs em «Blade Runner». Esta quarta-feira, 31, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, em Lisboa.

abrigos (1)

domingo, maio 28, 2006
«A cidade contemporânea é um "work in progress" com as suas obras permanentes: alargamento dos aeroportos, abertura de novas vias de tráfego, construção e reconstrução de prédios, construção de novos bairros e de novas áreas de circulação. Por outro lado, a sua composição e combinação social altera-se a um ritmo alucinante, através das migrações contínuas e da circulação de pessoas: 50% da população do globo vive em cidades e, neste momento, a cada hora que passa, enquanto 60 pessoas chegam a Manila, seis outras abandonam Moscovo.»

António Pinto Ribeiro, «abrigos - condições das cidades e energia da cultura», Cotovia, 2004.

Blogosfera

Uma esquina do Porto, por Alexandra Barreto.

Blogosfera

sábado, maio 27, 2006
Esta é uma cidade como outra qualquer. Cidade que se ergue sob finos andares, como Bauci, habitada por gente tímida que admira as pedras, as folhas e as formigas. Com tabernas e janelas iluminadas onde mulheres se penteiam no rés-do-chão das casas, como Despina vista de terra. Cidade aquática, como Esmeraldina, na qual as ruas se cruzam e sobrepõem e a linha mais curta entre dois pontos é um ziguezague. Cidade sonhada, como Isidora. Cidade vaga, como Armilla. Infelizmente, aqui não mora o génio de Calvino. Ora bolas.

Miguel Cardina

Uma grande verdade

quinta-feira, maio 25, 2006
«A forma de uma cidade muda mais depressa, infelizmente, do que o coração de um mortal.»

Charles Baudelaire

Blogosfera

quarta-feira, maio 24, 2006
Lisboa, Telheiras, por Alexandre Andrade.

Sérgio Tréfaut, Lisboa e os lisboetas

terça-feira, maio 23, 2006


Tudo sobre o filme aqui.

Paul Auster e Nova Iorque

Quinn não tinha dinheiro que chegasse para ir de autocarro. Pela primeira vez em muitas semanas começou a caminhar. Era estranho estar de novo de pé, mover-se firmemente de um lugar para outro, balançar os braços para a frente e para trás, sentir o chão sob os sapatos. E todavia lá ia ele, seguindo pela zona ocidental da Rua 69, virando à direita na Madison Avenue, começando a dirigir-se para norte. Tinha as pernas debilitadas e parecia-lhe que a sua cabeça era feita de ar. Tinha que parar de vez em quando para recuperar o fôlego, e a determinada altura quase caiu, tendo de agarrar-se a um lampião. Descobriu que as coisas se tornavam mais fáceis se levantasse os pés o menos possível, arrastando-se para a frente com passos lentos e deslizantes. Deste modo poupava forças para as esquinas, alturas em que tinha que se equilibrar cuidadosamente antes e depois de cada passo que dava para subir e descer o passeio.

(...)

Continuou em direcção à zona alta durante mais alguns quarteirões, depois inflectiu à esquerda, atravessou a Quinta Avenida e caminhou ao longo do muro de Central Park. Na Rua 96 entrou no parque e sentiu-se feliz por estar no meio da relva e das árvores. o fim do Verão tinha exaurido já muito do verde, e aqui e ali a terra revelava alguns remendos castanhos e poeirentos. Mas as árvores ainda estavam repletas de folhas e havia por todo o lado uma cintilação de luz e sombra que o maravilhou como se fosse um milagre de beleza. Era o fim da manhã e o pesado calor da tarde só surgiria várias horas depois.


A Trilogia de Nova Iorque
, Paul Auster, traduzida por Alberto Gomes para Asa, 1999

Blogosfera

segunda-feira, maio 22, 2006
Lisboa em baixa resolução, opus 124 [infância perdida].

Marco Polo e Isaura

Isaura, cidade dos mil poços, presume-se que se situe por cima de um lago subterrâneo. Por toda a parte onde os habitantes escavem na terra longos furos verticais conseguem tirar água, e foi até aí e não para além desses limites que se alargou a cidade: o seu perímetro verdejante repete o das margens escuras do lago sepultado, uma paisagem invisível condiciona a visível, tudo o que se move sob o sol é impelido pela onde que bate encerrada sob o céu calcário da rocha.

Por consequência, dão-se religiões de duas espécies em Isaura. Os deuses da cidade, de acordo com uns, habitam as profundidades, o lago negro que nutre as veias subterrâneas. Segundo outros, os deuses, os deuses habitam os baldes que sobem pelas roldanas quando saem fora da boca dos poços, nas polés que giram, nos cabrestantes das noras, nas alavancas das bombas, nas pás dos moinhos de vento que puxam a água dos furos artesianos, nos castelos das plataformas que sustêm o aparafusar das sondas, nos reservatórios suspensos sobre os tectos em cima de andas, nos arcos finos dos aquedutos, em todas as colunas de água, nos canos verticais, nos ferrolhos, nas válvulas, até às girândolas que se sobrepõem aos andaimes aéreos de Isaura, cidade que se move toda para cima.

Em «As Cidades Invisíveis», de Italo Calvino, traduzido por José Colaço Barreiros para a Teorema.

Rui Tavares e Paris

domingo, maio 21, 2006
Paris é uma cidade mortalmente aborrecida. Isto não é uma opinião. Rua após rua, os mesmos prédios beige e amarelo deslavado. As famosas esplanadas todas com exactamente as mesmíssimas mesas e cadeiras. A grelha urbana pomposa e sem imaginação com que Haussmann matou a Paris antiga. Praticamente nada quebra aqueles quilómetros e quilómetros dos equivalentes arquitectónicos às rendinhas e folhinhos.

E quando quebra, vejamos o que se passa. Temos a Tour Montparnasse, um monolito tacanho. Temos o Arco do Triunfo, um bolo de casamento. Temos o Sacré Cœur, uma piroseira oitocentista (desculpa André) que dá para uma vista de terra-de-ninguém urbana coberta de smog (mil perdões).

Depois temos a Torre Eiffel, que merece um parágrafo à parte. [continua aqui]

Texto republicado em «Pobre e Mal Agradecido», da Tinta da China, 2006

Borges e Buenos Aires

sexta-feira, maio 19, 2006
«Esta cidade que julguei ser o meu passado
é o meu futuro, o meu presente;
os anos que vivi na Europa são ilusórios,
estava sempre (e estarei) em Buenos Aires.»


De «Arrabalde», em Fervor de Buenos Aires, vol.I, pp. 30, Obras Completas, Teorema, Lisboa, 2001. Citado em A Buenos Aires de Borges, de Carlos Alberto Zito, na Teorema, 1998

O futuro das cidades portuguesas no parlamento

A cada projecto, seu arquitecto.

O historiador responde

quarta-feira, maio 17, 2006
Nas sociedades ocidentais do fim do século o desejo de cidade é contrariado pelo desejo de natureza. Terá a cidade perdido definitivamente os seus atractivos?

Não creio. Mas os urbanos do século XXI decidir-se-ão a viver, como desejam, numa cidade não poluída e portanto a abandonar o carro às portas da cidade ou nos parques de estacionamento? Na Idade Média a cidade tinha uma beleza viva mas estou convencido de que está em vias de conceber novos encantos que renovarão a sua sedução.

Jacques Le Goof, em «Por amor das cidades - conversas com Jean Lebrun», traduzido por Telma Costa para Teorema em 1997

Uma cidade imaginária de Luis Carmelo

segunda-feira, maio 15, 2006
Mega, Novara




















Mega, aqui em visão parcial, é a maior cidade de Novara e é tão grande como Fli (em Muça). A capital de Novara é uma cidade com o mesmo nome - a cidade mais antiga do maior país preto. Novara é um país de emigração com origem em Suçobre (um dos países do mundo velho). Este continente novo é coisa de final de 1984. O velho do início de 1982. Vê-se o bairro vermelho com imigrantes que vieram do norte do mundo para o sul, ou mais concretamente, de Vejelho para Novaveja, mas acabaram por ficar por aqui.

Próximo

quinta-feira, maio 11, 2006
No dia 31 de Maio, última quarta-feira do mês, a conversa no Jardim de Inverno é sobre o futuro das cidades. Da equipa do É a cultura, estúpido!, Anabela Mota Ribeiro e Daniel Oliveira animam o debate. Em breve anunciaremos o nome dos convidados.

Relato da última sessão

quinta-feira, maio 04, 2006
DE QUE NOS VAMOS RIR PARA O ANO?

Nuno Costa Santos perguntou a quem estava sentado à mesma mesa que ele: «O que é que vos fez rir nos últimos tempos, na última semana, o que é que vos fez rir hoje?». Ferreira Fernandes, jornalista e conhecedor do humor na óptica de quem o utiliza, referiu o que passou despercebido nas comemorações do 25 de Abril: o discurso do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, e de como ele citou a auto-biografia do actual PR, Cavaco Silva, que teria «saltado de alegria» em 1974. Rui Tavares respondeu que ainda agora tinha sorrido com ironia depois de saber que um historiador, ele próprio, estava ali para falar sobre o futuro do humor. Nuno Artur Silva confessou que ainda não se tinha rido no dia do «É a cultura, estúpido!», apesar do humor ser a matéria com que trabalha e considerou que as respostas dadas se situavam na fronteira do que é e não é humor.

Afinal, onde começa e acaba o humor? Para Nuno Artur esta generalização faz com que tudo pareça fazer parte de uma indústria de entretenimento geral e Nuno Costa Santos partilha da mesma sensação: «não há maior exclusão social do que não ter humor, quem não tem sentido de humor deixa de ter vida pessoal, sentimental, sexual, vivemos no mundo raso da sociedade humorística em que o cómico se torna obrigatório». Rui Tavares acha que os limites do humor são amovíveis, gasosos, o que nos faz viver como se houvesse dois modos de funcionar: com humor e sem humor. «O humor que está na berra é o das piadolas», considera Ferreira Fernandes, «os portugueses riem-se das pessoas que estão abaixo de si próprios; em Portugal, as piadas são sobre estas pessoas», excepção feita ao Contra-informação e Inimigo Público, «que têm os políticos como alvos». A Ferreira Fernandes responde Nuno Artur Silva, director das Produções Fictícias, que assinam os dois projectos, comentando que provavelmente os poderosos já não são os políticos, mas os futebolistas, economistas, «os políticos são dos mais inofensivos da classe do poder». E responde também Rui Tavares, constatando que rir da desgraça alheia é um traço humano e não propriamente português, «quando alguém tropeça na rua, a partir do momento em que se guarda alguma distância que torna impossível ajudar quem caiu, a partir do momento em que se baixa a guarda da humanidade, podemos rir-nos da situação». Acrescenta o historiador que os limites sociais do humor são consensuais, há sempre a possibilidade de alguém não ter percebido, ou de ter percebido e não ter achado graça. Nuno Artur Silva explica de outro modo: o humorista é o humorista e as suas circunstâncias, a mesma frase dita num contexto diferente ou de modo diferente pode não ser engraçada. Como aliás aconteceu com a piada de Woody Allen repetida por Ferreira Fernandes perante a silenciosa audiência do S. Luiz, conforme o próprio acabou por verificar. Acrescenta ainda Nuno Artur que Woody Allen, desde os primeiros filmes, foi deixando de fazer humor puro e duro, numa sucessão de gags hilariantes, e ganhando a vontade de contar histórias pontuadas por humor. «É a diferença entre comer açúcar à colher ou doces confeccionados.»

Há pouco mais de um mês, o Gato Fedorento ganhou honras de horário nobre no canal generalista do Estado. Nuno Costa Santos acha que este destaque corresponde a uma alteração do tipo de humor que faz rir os portugueses. No entanto, pergunta, «o que sobrevive melhor: o registo do Gato Fedorento ou dos Batanetes?» Para Ferreira Fernandes, o sucesso do programa está em trazer para a televisão, o que não está lá, muito menos nos jornais: o povo. Seja lá o povo quem for. Nuno Artur Silva discorda, «o povo já está na televisão, somos todos nós». Além disso, segundo o agente provocador, de um ponto de vista técnico já não há canais generalistas, «a televisão está segmentada em televisão para pobres e os que têm um pouco mais», cada vez há menos espaço para fenómenos como o Gato Fedorento, um caso isolado.

«Haverá um humor de esquerda e um humor de direita?» Nuno Costa Santos não quis deixar de colocar uma questão política. Ninguém lhe respondeu muito convictamente, mas a pergunta serviu para virar o debate para o polémico tema dos limites do humor, relançado recentemente com a publicação das caricaturas de Maomé num jornal dinamarquês. Rui Tavares, acérrimo defensor dos limites para além do bom-senso, começou por referir a confusão entre os limites sociais e legais do humor (estes não são exclusivos do humor, mas de qualquer discurso). Além destes, há ainda os limites éticos que não coincidem necessariamente com os anteriores. Quanto aos cartoons da polémica, o historiador considera que a resposta dada pela Direita, de que a sátira não pode ter limites, foi mal argumentada. E ainda chamou a atenção para a fragilidade dos «limites do bom senso» - que têm que ser definidos por alguém.

A este propósito, Ferreira Fernandes conta que em 1991 fez uma piada sobre a morte de um militar de alta patente na marginal, na mesma semana do envio de tropas portuguesas para a Guerra do Golfo. Hoje não repetiria a piada, mas também não admitiria que ninguém o impedisse de a fazer. Ferreira Fernandes acha que tem o direito de fazer humor com o que quer que seja e, inspirado por essa convicção, conta como todos os dias passava por um graffiti que dizia «se deus existe, o problema é dele», confirmando assim a sua própria liberdade de expressão. Para Rui Tavares as pessoas que negam os limites do humor estão a desvalorizar as palavras e a prestar um mau serviço à liberdade de expressão. «O bom senso não tem boas mãos», diz Rui Tavares. E não é o único, acrescenta, relembrando que foi John Stuart Mill quem disse que não se pode gritar «fogo!» num teatro cheio de gente, a liberdade de expressão não pode ser assim tão elástica.

Obviamente em desacordo com Rui Tavares, Ferreira Fernandes acha que assim sendo, o futuro do humor aconteceu há duas semanas em Belleville, Paris, onde um grupo de bobos (bourgeois-bohèmes, burgueses boémios) foi atacado por jovens muçulmanos depois de ter publicado, num café, cartazes anti-deus. Ferreira Fernandes está do lado dos bobos, «custou-nos muito a chegar aqui». Rui Tavares não concorda com a dicotomia em que parece que fomos colocados: ou se proíbe a ofensa, ou nos ofendemos todos. E concluiu que o argumento do bom senso é inconsistente já que depois dos cartoons houve ameaças gravíssimas à liberdade de expressão que passaram despercebidas. Exemplos não devem faltar e Rui Tavares convidou os presentes a compararem os resultados de uma pesquisa da entrada «Tiananmen», no google.com e no google.cn (chinês). [Experimente também o leitor.] A Ferreira Fernandes não faz confusão a censura de conteúdos na Internet, a verdade é que pode passear no bairro chinês de Paris com uma t-shirt onde se leia «Cristo é feio» e não pode fazer o mesmo em lado algum se em vez disso se ler «Maomé é feio». Voltando ao bom senso, que a partir de certa hora falou-se mais de bom senso do que de boas gargalhadas, Rui Tavares ripostou que «numa comunidade politicamente organizada, o lugar do bom senso não é estar na lei, é estar nas atitudes: ofender interminavelmente ou ofender um bocadinho. Eu prefiro a segunda, e isso é uma questão de bom senso.»

Para fechar a conversa, Nuno Costa Santos perguntou pelos grandes temas do humor no futuro. «Humor é reconhecimento, as pessoas riem-se daquilo em que se reconhecem», foi a resposta de Rui Tavares que acrescentou: «em Portugal as piadas são sobre sexo e futebol, mas o espaço de liberdade tem estado a aumentar, já se goza com Fátima». Nuno Artur Silva relembrou a polémica do sketch que as Produções Fictícias escreveram para o Herman José sobre a Última Ceia. Foi em 1999, e a única coisa que Nuno Artur lamenta é que o sketch fosse mau. Nessa altura não se podia gozar com Fátima nem com o PCP, quem o dizia era Herman. Um ano depois as Produções assinaram um outro sketch sobre Fátima e este passou sem problemas. «De uma piada sobre futebol pode resultar uma ameaça de morte, mas a religião neste momento não suscita o mesmo interesse», diz Nuno Artur, que sabe bem quem se incomoda com o humor que se faz em Portugal, onde, segundo o especialista, neste momento é mais fácil fazer uma piada sobre Cristo do que sobre Maomé, apesar da confissão religiosa dominante. E foi assim que saímos do São Luiz, com a ideia de um futuro incerto para o humor em Portugal, que não sabemos onde pode começar e acabar, e que vai dominando todas as conversas, como se fosse uma obrigação social.

[Margarida Ferra]

Relato num comentário

terça-feira, maio 02, 2006
Morno. Ainda assim, foi agradável poder ouvir inúmeros episódios com que os intervenientes ilustraram a conversa e fizeram esquecer o facto de as cadeiras do Jardim de Inverno serem, decerto, provenientes dum tribunal do Santo Ofício do futuro.
Melhor momento: o único em que o agente provocador cumpriu essa função, ao manifestar o seu cansaço diante da omnipresença, quase ditadura, do humor em demasiados aspectos da vida pública e privada da actualidade. Pode produzir algum desencanto constatar essa quase obrigação de ter piada, sobretudo depois de décadas a fio em que o humor esteve ausente deste país. Pode até ser paradoxal ser preciso alguém com a profissão do agente provocador para denunciar esse facto. Não deixa de ser verdade que, hoje em dia, qualquer acto de comunicação sem umas graçolas pelo meio está condenado a ser recebido com indiferença pelo/s destinatário/s. Quase como se aquilo que valesse a pena fosse viver dentro duma sitcom com gargalhadas gravadas.

José Quintas.