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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Relato da última sessão

Foi para falar do futuro, «terra incógnita para a ciência, mare nostrum para a literatura» (assim o descreveu José Mário Silva), que foram convidados para a última sessão de 2005, Nuno Crato e João Barreiros. Pedro Mexia moderou o debate. A conversa demorou algum tempo a começar, no fim de tarde em que o Metro parou, trazendo à superfície uma parte considerável da população de Lisboa e atrasando o início da sessão sobre «O Futuro do Futuro». Depois, porém, fluiu com graça e foi sendo interrompida pelas sugestões de leitura de José Mário Silva e Pedro Mexia, «o que não andam a ler» estes dois elementos da equipa residente do «É a cultura, estúpido!» e ainda o balanço dos discos, livros, e filmes do ano que passou.

Ciência e literatura vêem futuros diferentes — uma tentando prevê-lo e melhorá-lo, outra inventando-o e muitas vezes tornando-o mais negro. Pedro Mexia sublinhou a visão pessimista que a maioria dos escritores de Ficção Científica (FC) têm de amanhãs povoados por vírus ou máquinas destrutivas e perguntou, por isso, a João Barreiros, escritor e perito na matéria, se as distopias não seriam precisamente uma espécie de avisos literários.

João Barreiros clarificou o género explicando que há dois tipos de FC: um de que Júlio Verne é o arauto, debruça-se sobre as viagens extraordinárias e é baseado nas possibilidades do momento; o outro, onde se inscrevem romances como os de Wells, ocupa-se do futuro e é aqui que a distopia tem lugar. Esta é a visão que mais interessa a João Barreiros, a quem as utopias aborrecem ou pelo menos não oferecem potencial literário: «não acontece nada, as pessoas são felizes e terminou, ponto final». Prefere as distopias, sobretudo aquelas em que o sistema oprime o cidadão, na linha do Mil novecentos e oitenta e quatro, alertando-nos para os perigos que se podem prever. Por exemplo, é precisamente porque Ray Bradbury não quer um futuro como o de Fahrenheit 451 que escreve sobre ele.

«Nós vivemos no futuro dos nossos avós, tudo isto é cenário de FC», mas ainda assim, garante João Barreiros, «o salto tecnológico é de tal maneira vertiginoso que saltámos bem à frente do que Clarke imaginou quando disse que em 2001 estaríamos em Júpiter». Não foi por aí que o mundo mudou, o que se prevê é que caminhemos para a alteração da espécie humana (e os estados alternativos de consciência são impossíveis de descrever com rigor, o que torna tudo mais complicado). Clarke é autor do argumento do 2001 de Stanley Kubrick, e a dada altura, Pedro Mexia perguntou a João Barreiros as razões da hostilidade dos apreciadores de literatura FC relativamente ao cinema do mesmo género. Resposta: «a incoerência das histórias, a desarticulação da estrutura narrativa e o excesso de erros científicos».

Segundo Nuno Crato, as pessoas ligadas à ciência gostam de ficção científica porque diverte e porque na FC reconhecemos as nossas preocupações. Além disso, é o único domínio cultural onde se trata a ciência – a ciência, ao contrário do amor, é pouco tratada na literatura, no teatro, na música. E nos casos que contrariam este cenário, dita a regra que o cientista tem que ser apresentado como génio louco, rodeado de clichés românticos, com uma história de amor que justifique tudo o resto.

A Pedro Mexia parece-lhe que a comunidade científica tem uma grande resistência ao fenómeno editorial. António Damásio e João Magueijo saltaram para o mainstream: Damásio é acusado de praticar uma ciência light, uma espécie de ciência para os leitores da revista Xis, Magueijo é acusado de ter sucesso por ser rebelde. A Nuno Crato não lhe parece nada disto. Para ele, ambos os cientistas são simultaneamente reconhecidos e alvo de inveja.

Será o futuro a principal preocupação da ciência? Para o divulgador científico é importante que a ciência, genericamente, se desprenda da utilidade prática imediata, pelo que poderá parecer que não se importa assim tanto com o futuro. No entanto, numa tentativa de perceber o que virá, a futurologia pode usar os instrumentos da ciência. Depois, há certos ramos da ciência que se dedicam à previsão. O exemplo mais evidente é o da meteorologia, que prevê com um alcance curto (à medida que o horizonte se afasta a imprecisão é maior). Nuno Crato acha que, apesar de tudo, os cientistas em geral são optimistas, acreditam que há progresso. Há uma espécie de credo dos cientistas que diz que o mundo é inteligível e é possível compreendê-lo melhor. É evidente que a ciência progride através do erro, mas em política também se cometem erros. Além disso, no caso de Egas Moniz, usado como exemplo e acusado posteriormente de ter sido premiado e ter aberto o caminho para o erro que foram as lobotomias, o Nobel foi-lhe atribuído pela angiografia e não pela lobotomia. No que a erros diz respeito, é preciso ainda dissociar a aplicação da ciência da investigação científica. É o caso da física atómica e das células estaminais: a ideia de não fazer, de não saber nada, não vinga; até porque se a investigação não for desenvolvida por uns, sê-lo-á por outros, é impossível manter domínios intocáveis.

Depois de se ter discutido a questão da Bomba Atómica e da guerra fria, da clonagem e das bananeiras (ficámos a saber que todas as bananas que comemos são clones), Nuno Crato concluiu com outro credo dos cientistas: deste tipo investigação em áreas sensíveis podem resultar muitos males, mas também, certamente, muitos bens.

[Margarida Ferra]

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