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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Relato da última sessão

terça-feira, janeiro 31, 2006
Isabel Leal, na mesa do "É a cultura, estúpido!" na qualidade de psicóloga, anda há muitos anos a ouvir pessoas a falar dos afectos e sente alterações nos discursos e no modo como vamos amando. O que mudou então? Para a psicoterapeuta foram essencialmente quatro coisas. A primeira: a assunção de que o amor é efémero (para além do período de três meses a três anos, em que estão apaixonadas, as pessoas sabem que o amor não dura para sempre). Ligada à primeira, a segunda alteração: a importância do Outro nas nossas vidas tende a decrescer. A terceira mudança tem a ver com a etiqueta: há uns anos atrás a palavra amor era um guarda-chuva enorme debaixo do qual cabia tudo, hoje as pessoas esmiuçam diferentes tipos de amor, querem perceber as diferentes nuances das várias maneiras como nos vinculamos, estão mais interessadas em perceber qual é a natureza do vínculo naquele momento. Quarta e última grande novidade nos nossos dias: o modo como nos vinculamos a outras gerações: pais e filhos, a relação entre pais e filhos. Aqui há uns tempos chamamos-lhe família, Isabel Leal diz que esta morreu como a conhecíamos, agora é outra coisa qualquer. O que é importante é a parentalidade.

Para Miguel Vale de Almeida (é antropólogo, activista LGBT, e investiga, entre outros temas, questões relacionadas com o Género, a Sexualidade e o Corpo), discutir o futuro é uma forma de comentar o presente. E em relação à família o debate é feito agora com um sentido de urgência porque as pessoas vêem surgir formas diferentes das que viam ontem. E estão expostas de outra forma à avaliação.

As nossas famílias são muito diferentes das de há 50 anos. É muito claro para Anabela Mota Ribeiro que a família era (e já não é) uma célula constante que assenta na procriação, continuidade e conforto. Talvez por isso, lançou a questão: podemos agora dar-nos ao luxo de nos concentrarmos na natureza da relação? Miguel Vale de Almeida responde que a família é uma organização feita a partir de fora, que controlamos mais as relações a dois se formos descobrir denominadores comuns nas relações. E que denominador comum? Um contrato moral, social e ético que diz que a relação vale em si (“pura relação”, como lhe chama Giddens) e é baseada no mútuo consentimento informado (está tudo aqui muito bem explicadinho). Acrescenta um sinal dos tempos: as pessoas têm um discurso e um conhecimento sobre a relação, as pessoas entendem-se sobre isso, “queria ter uma relação”, “a minha relação não está bem”, ouvimos na mesa do café ao lado da nossa, e até para o sexo usamos o termo “relações”. Aquilo que para um antropólogo é um termo técnico ganhou um sentido de rua. Há uma atenção individual muito forte à ideia de relação. No entanto, isto só é possível hoje e aqui (no mundo Ocidental, onde existem as ideias de individuo e de cidadão).

Haverá um dia em que os nossos vínculos podem escapar dos poderes, preconiza Isabel Leal. A igualdade de género, por exemplo, não é ainda um facto per si, é uma tendência. Toda a história do mundo nos diz que os poderes sempre arranjaram maneira de interferir na nossa sexualidade e afectos. Só quando nos libertarmos da angústia e dos poderes, vão emergir as verdadeiras razões porque nos vinculamos. Agora, vinculamo-nos porque não temos alternativa, porque no quotidiano não dá jeito nenhum ser sozinho.

Nuno Artur Silva acredita que uma relação é uma coisa mental, acontece na nossa cabeça. Como tudo se passa na cabeça de cada um, a relação que temos não é com o outro, mas com a imagem que fazemos do outro. E na nossa cabeça há sempre outras relações. O problema da traição fica desde logo arrumado. Ou em cima da mesa... Sobre a mesa também, o sexo, incontornável. Num fio paralelo, durante todo o debate, esteve sempre presente. Para Nuno Artur Silva este sexo de que falamos quando falamos das relações é uma ficção dentro de outra ficção, capaz de nos trazer a felicidade. A questão não é tanto as pessoas sentirem falta do sexo, mas a maneira como o sexo está inscrito numa ficção. Não se trata do sexo pelo sexo, para isso bastavam-nos as máquinas. Assim, resta-nos a imprevisibilidade. Ainda assim, se a nossa relação com personagens de livros é mais intensa do que com as pessoas, a nossa relação com parceiros virtuais pode ser mais interessante do que o real.

Diz Isabel Leal que os seres humanos têm duas dimensões controláveis: a agressividade (exercemos uma violência moderada com as crianças para elas não serem violentas) e a sexualidade. Para sermos seres culturais temos que controlar a agressividade e a sexualidade. A psicóloga não percebe o porquê desta obsessão com a sexualidade e espera pelo dia em que a sexualidade não seja um problema central nas nossas vidas. Também o antropólogo se pergunta como é que construímos esta centralidade do sexo, aí colocado por todos, do comércio à academia. Não é que ponha em causa a importância da fruição sexual, mas questiona a orientação das relações em função da sexualidade perfeita. A sensação de laço com alguém, aquilo a que chamamos amor, devia ser o principal e tudo o resto devia vir por acréscimo. Mas normalmente as histórias começam pelo lado do desejo, correndo assim o risco de nunca resultarem. Nuno Artur concorda que é assim que tudo começa, acha que quando conhecemos uma pessoa pensamos “isto vai ser ou não amizade?” e o que faz a diferença é “vamos ou não ter sexo”. Isabel Leal é que não vê esta bifurcação com tanta clareza, não concorda, diz-lhe a experiência dos muitos que a consultam que podemos dormir com as pessoas e continuar amigos como dantes. Com esta afirmação o agente provocador diverge de novo, ao considerar que não é possível ir fazendo sexo de vez em quando durante muito tempo. Nuno Artur constata que andamos todos à procura de aventura e acabamos todos na pastelaria, como diz O’Neill, e, acrescenta: “com os sacos do supermercado, a decidir quem é que faz o jantar”. É aqui que Anabela Mota Ribeiro introduz a questão da conjugalidade, perguntando se é ela que mata a aventura, destrói o romance.

Quanto ao futuro das relações importa a Miguel Vale de Almeida perceber como é que um eu constrói uma relação com os outros que não tenha que ser mediada por uma estrutura anónima, o Estado. De que formas é que se pode tornar uma relação real, sentida. A ideia de care é talvez o importante nas relações entre as pessoas, pessoas que vivem juntas, como amigos e também no exercício da parentalidade. A parentalidade é uma realidade em que a ética mínima não se aplica, não pode haver mútuo consentimento com as crianças. Não se lhes pode perguntar se querem ou não viver com aquelas pessoas. Miguel Vale de Almeida prevê que o que vai acontecer nas relações de parentalidade é uma maior colectivização, um maior poder de intervenção das pessoas em situações particulares. Quanto às outras relações, acha que a tendência é para se procurar perceber melhor a natureza da ligação que temos aos outros. E, acredita, daqui a 50 anos já não estaremos contaminados pela ideia de casal hetero e provavelmente desaparecerá também a ideia de orientação, que vem da ideia de género. Isabel Leal acha que somos herdeiros de modelos monolíticos que nos antecederam. Isso sente-se no modelo de família que temos (castrador para a infância e para quem exerce a parentalidade), nas questões de género, nas questões de orientação. Libertar-nos-emos destes modelos asfixiantes num futuro melhor. Era bom que começássemos a trabalhar para isso.

[Margarida Ferra]

Ecos na blogosfera

segunda-feira, janeiro 30, 2006
O relato feito a partir da mesa no blogue de Miguel Vale de Almeida diz tudo. Mesmo que tenha perdido o encontro no Jardim de Inverno, não perca estas racionalizações depois de uma agradável e solta conversa sobre "O Futuro das Relações".

Vozes no Jardim de Inverno (4)

sexta-feira, janeiro 27, 2006
Há tanto mais qualidade na relação quanto mais qualidade literária tiver. Precisamente porque vivemos nas ficções que construímos. Amar é acreditar que se ama. Não é importante que o amor exista, é importante que acreditemos nele. Crença, reliogisidade pagã, é disso que se trata. Não precisamos de Deus, mas dos deuses, para podermos acreditar nas relações que são epifanias no sentido etimológico do termo religioso (re-ligare). Trata-se de encontrar novos modelo, outras qualidades, vozes para cada caso diferente.

Nuno Artur Silva

Vozes no Jardim de Inverno (3)

Toda a história do mundo diz-nos que os poderes sempre arranjaram maneira de interferir na nossa sexualidade e afectos. Só quando nos libertarmos da angústia e dos poderes podem emergir à séria as razões porque nos vinculamos. Agora, vinculamo-nos porque não temos alternativa, porque no quotidiano não dá jeito nenhum ser sozinho.

Isabel Leal

Vozes no Jardim de Inverno (2)

As pessoas querem ser únicas e quando pensam nisso pensam em sexo. Daí a violência da traição.

Anabela Mota Ribeiro

Vozes no Jardim de Inverno (1)

Há uma ética crescente de que as relações de conjugalidade devem ser baseadas na igualdade e ser baseadas na amizade (o código que as funda é egualitário). Se aqui se mete a variável género fica tudo baralhado porque as relações se tornam estruturadas para seres hierarquicamente desiguais. As relações hetero são mais formatadas socialmente. Há um código cultural que à partida empurra para uma relação marcada pelo poder. Quando um homem e uma mulher começam uma relação de conjugalidade, está previsto que vai haver diferenças.

Miguel Vale de Almeida

Imagens de ontem

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Anabela Mota Ribeiro, Miguel Vale de Almeida, Isabel Leal, Nuno Artur Silva


Público

Este é que é o Press Release:

terça-feira, janeiro 24, 2006
O FUTURO DAS RELAÇÕES NO “É A CULTURA, ESTÚPIDO!”

Na próxima quarta-feira, dia 25 de Janeiro, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai discutir O Futuro das Relações.
Ao invés de insistir no muito estafado confronto entre a esquerda e a direita, entre o modo liberal e o modo convencional de olhar as relações amorosas, convidámos duas pessoas de pensamento original sobre esta matéria: Isabel Leal (psicóloga) e Miguel Vale de Almeida (antropólogo). A sessão (livre) será moderada por Anabela Mota Ribeiro e o agente provocador será Nuno Artur Silva (que há anos co-escreveu um manifesto sobre o tema a que chamou «A elaboração dos acasos»).
ee cummings escreveu que a função do amor é criar desconhecimento. No próximo “É a Cultura, Estúpido!” vamos dissecar este e outros versos e especular sobre o futuro das relações amorosas. Falar da revelação, do
inesperado, da epifania que dá pelo nome de paixão, das diferentes formas de viver os afectos. A sós, a dois, a três, a quatro... Como vamos organizar-nos, agregar-nos, dar-nos, amar-nos no futuro? E o futuro, é já hoje?


Recebido por e-mail:

segunda-feira, janeiro 23, 2006
Fogos foi escrito por Marguerite Yourcenar aos 32 anos, entre uma crise passioal.

«O que existe entre nós é melhor do que amor: é cumplicidade.»

«O álcool faz perder as ilusões. Depois de algumas gotas de conhaque, já não penso em ti.»

«Não existe amor infeliz: só se possui aquilo que não se possui. Não existe amor feliz: o que se possui, já não se possui.»

«Não mais se dar é ainda dar-se. É dar o seu sacrifício.»

«O amor é um castigo. Somos punidos por não termos podido permanecer sós.»

Marguerite Yourcenar, Fogos, Relógio D´Água, Colecção Ficções, 1988

Pergunta & resposta

domingo, janeiro 22, 2006
DNa - Nas relações humanas, política, económica ou socialmente, a questão é, mais uma vez, quem detém o poder.

Miguel Vale de Almeida
- Absolutamente. As pessoas influenciam-se, convencem-se, desconvencem-se, exercem autoridade, manipulam, fazem alianças. Tudo isso são relações de poder, e há perdas e ganhos que são vistas em termos de prestígio. Vivem períodos da vida, curtos pelo que consta, em que parece que construiram uma utopia. É por isso que gostam tanto do amor. Porque, sobretudo no momento da paixão, sentem uma ligação íntima e preciosa com o outro. Eu acho que parte da sensação boa que têm é porque sentem que suspenderam as relações de poder.

Miguel Vale de Almeida, em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, publicada no DNa, em 1999.

Pergunta & resposta

sábado, janeiro 21, 2006
DNa - Porque é que as pessoas se separam? Que constantes é que encontra no seu trabalho com casais desavindos?
José Gameiro - Os casamentos deixam de funcionar quando uma pessoa tem o sentimento que não é amada, entendida, compreendida. Ou que deixa de amar e de sentir-se próxima, do ponto de vista do amor, da outra. Sentir isso de vez em quando, se calhar toda a gente sente. Estou a falar de sentir isso ao longo do tempo e de uma forma estável. Esta é uma das situações, talvez a mais frequente.DN A outra é um bocado paradoxal: eu gosto muito daquela pessoa, mas acho que ela não se deixa gostar, ela acha que eu não sei gostar dela como ela quer.

DNa - Que é feito das relações abertas?
José Gameiro - É um flop completo em termos sociológicos. A penalização da transgressão continua a existir. Não me venham dizer que a maior parte das pessoas aceitam que o seu parceiro tenha outras pessoas.

DNa - Já conheceu alguém que aceitasse?
José Gameiro - Já. Mas é muito esporádico. Mais em relações de namoro, não de coabitação. Aceitam sempre com um nozinho na garganta... Não é fácil.

DNa - Não é fácil por causa da troca, do despeito?
José Gameiro - É uma ferida. As pessoas imaginam sempre que pode ser melhor com as outras, imaginam coisas terríveis da partilha do corpo. Também acontece uma coisa muito interessante: as situações de infidelidade conjugal que aparecem e se resolvem, são um excelente prognóstico. Há um renascer do casamento, a relação sexual, que estava adormecida, melhora espectacularmente. São novamente muito vivos, arranjam-se mais, etc.

José Gameiro, entrevistado pela Anabela Mota Ribeiro para o DNa, em Agosto de 2003.

Os únicos seres vivos daquele lado da cidade

sexta-feira, janeiro 20, 2006
«O silêncio do quarto é profundo, nenhum barulho chega agora nem das estradas nem da cidade nem do mar. A noite está a chegar ao fim, em toda a parte límpida e negra, a lua desapareceu. Eles têm medo. Ele ouve, de olhos no chão, aquele silêncio assustador. Diz que são horas de águas imóveis, mas que as águas da maré a subir já estão a reunir-se, que o acontecimento decorre, que vai produzir-se depressa agora e vai passar despercebido àquela hora da noite. Que fica sempre desolado por verificar que acontecimentos com aquele nunca foram vistos.
Ela olha para ele a falar, de olhos muito abertos e escondidos. Ele não a vê, continua de olhos baixos no chão. Ela diz-lhe que feche os olhos, que se torne de certo modo cego, que se recorde dela, do rosto dela.
É o que ele faz. Fecha os olhos com muita força e durante muito tempo, como as crianças. Depois pára. Outra vez, diz:
- Logo que fecho os olhos vejo uma pessoa diferente que não conheço.
Os olhos deles fogem, desviam-se. Ela diz: Estou aqui à sua frente e não me vê, isso assusta. Ele fala depressa para colmatar o medo. Diz que isso também deve estar relacionado com aquela hora da noite, aquela mudança do mar, que até as passagens vão acabar, que eles vão ser os únicos seres vivos daquele lado da cidade. Ela diz que não, não é isso. »

De «Olhos Azuis, Cabelo Preto», de Margarite Duras, tradução de Tereza Coelho, Difel, 1986

[Dance me to] the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Respondendo ao pedido de uma leitora devidamente identificada, um copy-paste deste booklet:

Press Release

quinta-feira, janeiro 19, 2006
ee cummings escreveu que a função do amor é criar desconhecimento. No próximo «É a cultura, estúpido!» vamos dissecar este e outros versos e especular sobre o futuro das relações amorosas. Falar da revelação, do inesperado, da epifania que dá pelo nome de paixão, das diferentes formas de viver os afectos. A sós, a dois, a três, a quatro..., mas também a 624? Como vamos organizar-nos, agregar-nos, dar-nos, amar-nos no futuro? E o futuro, é já hoje? Ao invés de insistir no muito estafado confronto entre a esquerda e a direita, entre o modo liberal e o modo convencional de olhar as relações amorosas, convidámos duas pessoas de pensamento original sobre esta matéria: a psicóloga Isabel Leal e o antropólogo Miguel Vale de Almeida. A sessão (livre) será moderada por Anabela Mota Ribeiro e o agente provocador será Nuno Artur Silva (que há anos co-escreveu um manifesto sobre o tema a que chamou «A elaboração dos acasos»). Quarta feira, 25, às seis e meia da tarde, no Teatro S. Luiz, em Lisboa.

«O que é o amor?»

quarta-feira, janeiro 18, 2006
é talvez a interrogação mais convencional e ao mesmo tempo mais retórica do homem comum ocidental dos nossos dias. De facto assume-se com a sua formulação uma irresponsabilidade e uma indefinibilidade que mitificam a questão mas que não são senão o ocultar de inúmeras convenções e preconceitos, ou de falsas emancipações, que instalam a indiferença, a confusão e os equívocos.

in «A Elaboração dos Acasos», de Nuno Artur Silva e Luís Miguel Viterbo, &etc, 1989

terça-feira, janeiro 17, 2006
é no meu corpo que morreste. agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as

conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação de imperícia;

os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na

sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou no dia.
é no meu corpo que morreste, agora.



António Franco Alexandre, Poemas, Assírio e Alvim, 1996

Our Mutual Friend

segunda-feira, janeiro 16, 2006
No matter how I try I just can't get her out of my mind
And when I sleep I visualise her.
I saw her in the pub. I met her later at the night-club.
A mutual friend introduced us.
We talked about the noise
And how it's hard to hear your own voice
Above the beat and the sub-bass.
We talked and talked for hours, we talked in the back of our friend's car
As we all went back to his place.

On our friend's settee
She told me that she really liked me
And I said "cool, the feeling's mutual”.
We played old 45's. I said "it's like the soundtrack to our lives”
And she said "true, it's not unusual”.
Then privately we danced But couldn't seem to keep our balance,
A drunken haze had come upon us.
We sank down to the floor and we sang A song that I can't sing any more,
And then we kissed and fell unconscious.

I woke up the next day all alone but for a headache.
I stumbled out to find the bathroom.
But all I found was her wrapped around another lover.
No longer then is he our mutual friend.

Daqui:

Blogosfera

sábado, janeiro 14, 2006
Será o sexo entre pessoas inteligentes e cultas melhor?

O Eduardo pergunta e responde, a Inês comenta.

Sleeping

sexta-feira, janeiro 13, 2006
My girlfriend started falling asleep during sex. Disconcerted, I asked her whether I should be doing it differently or something. She told me everything was fine and that I wasn't to worry, but it kept on happening. Once, I shook her awake and begged her to tell me what it was she really wanted me to do. "Oh, you wouldn't want to know", she laughed. I told her I wanted to know more yhan anything in the world; that I could think of little else. She looked away. "No, really", she said quietly almost to her self. "You wouldn't want to know."

Dan Rhodes, Anthropology and a hundred other stories, Fourth State, London, 2000

Herself

quinta-feira, janeiro 12, 2006
Running Water left me. She told me she was very fond of me, but that se needed some time to herself. Six weeks later I saw her outside the local church, wearing her very best cerimonial head-dress and clinging to the arm of an unusual handsome man. I rushed through the confetti, and glared at her. "So how did you enjoy all the time to your self?" I hissed.
"It was great, thanks," she answered, smiling for the cameras, and looking even pretty that I remembered. "I had two cups of coffee and a croisssant, and then I read a magazine."

Dan Rhodes, Anthropology and a hundred other stories, Fourth State, London, 2000

Blogosfera

quarta-feira, janeiro 11, 2006
Todos os dias todos os dias todos os dias

To me the thing about marriage is I can't believe how often it happens. I mean, I like the idea of it, but I can't believe that many people are meeting people that they wanna see every single day, every day, every day, every day, every day. That should happen like 3 ou 4 times, you know, in the whole century.


Seinfeld, série 5, episódio «The Wife»

Copy-paste daqui.

Grelha televisiva

terça-feira, janeiro 10, 2006
«O casal de namorados decidiu apreciar algumas horas de descanso durante o fim-de-semana que se seguiu à conferência do banco onde Eric trabalhava. Num determinado momento, Alice recostou-se ao seu lado no sofá e, enquanto brincava com a sua mão, disse-lhe: " Sinto-me tão bem ao pé de ti".
A resposta mais apropriada neste caso seria uma frase de teor equivalente. Contudo, longe de retribuir a atenção, Eric perguntou-lhe:
- A que horas vai dar o filme do James Bond hoje à noite?
Ninguém foi espancado e não houve escoriações ou gemidos. No entanto, a balança do poder havia - de maneira imediata e decisiva - pendido a favor de Eric. Se fosse possível aferir o diálogo do casal, dir-se-ia que o peso da frase de Alice se tornava insignificante, quando comparado com a pergunta inoportuna do namorado.
Para que o desequilíbrio fosse compensado, bastava Eric ter dito: "Eu também me sinto bem contigo". Mas, por alguma razão obscura (talvez o horário do filme fosse de facto uma preocupação), Alice ficou a ver navios.



No amor, o poder traduz-se pela habilidade de não se deixar envolver. Podemos tornar-nos poderosos no terreno afectivo quando alguém afirma sentir-se bem ao pé de nós e podemos dar-nos ao luxo de não dar ouvidos a uma frase gentil, desviando o assunto para a programação da TV. Ao contrário de outras esferas, o mais forte numa relação afectiva é aquele que não tem expectivas em relação ao outro, não deseja ou não precisa de nada. O amor tem como característica principal o envolvimento mútuo e a compreensão. Aquele que bloqueia o processo, mudando o rumo de uma conversa ou respondendo a uma ligação telefónica com duas horas de atraso, imediatamente e sem esforço exerce um poder assustador sobre o mais fraco, o mais confiante e o mais carente.»


Fonte:

Amantes para o retrato

segunda-feira, janeiro 09, 2006

René Magritte, Les Amants, 1928

Da incompetência e das verdades

domingo, janeiro 08, 2006
«Até aos doze anos sempre pensara que os pais faziam um matrimónio feliz. Joana ralhava todos os dias com a criada, e isso dava-lhe uma formidável sensação de força, quase de perigo. as pessoas que estão descontentes com as escolhas que fazem precisam de se rodear de pequenas provocações, como insultar alguém ou falar alto nos lugares de certa cerimónia - a igreja, por exemplo. Notava-se que Joana era uma pessoa intimidada por um destino que não era capaz de vencer, porque estava sempre prestes a "dizer as verdades". Nas sociedades imaturas, dizer as verdades (e, o que é mais, julgá-las) é um processo de incompetência. Quanto mais as pessoas são incompetentes, mais se comprometem com dizer as verdades. Não vale de nada dizer as verdades; o princípio da incerteza vela para que elas não causem nenhum efeito nos bons e nos maus.»

Agustina Bessa-Luís, Jóia de Família, Guimarães, 2001

Blogosfera

sexta-feira, janeiro 06, 2006
Citações do amour fou, aqui, aqui e aqui.

Amar o amor

quinta-feira, janeiro 05, 2006
ANULAÇÃO. Sopro de linguagem durante o qual o sujeito acaba por anular o objecto amado sob o volume do próprio amor: por uma perversão especificamente apaixonada, é o amor quem o sujeito ama, não o objecto.

1. Carlota é bastante insípida; é o personagem fraco de uma representação forte, torturada, ofuscante, realizada pelo sujeito Werther; por uma graciosa decisão deste sujeito, um rídiculo objecto é colocado no centro do palco e aí é adorado, incensado, olhado à parte, coberto de discursos, de orações (e, talvez, secretamente, de invectivas); dir-se-ia uma pomba inchada, imóvel, atafulhada na sua plumagem, à volta da qual gira um macho um pouco louco. Basta que, num relance, eu veja o outro como uma espécie de objecto inerte, empalhado, para que transfira omeu desejo deste objecto amado para o meu próprio desejo; é o meu desejo que desejo e o ser amado não é mais do que seu subordinado. Exalta-me o pensamento de uma tarefa tão grande que deixa longe e para trás a pessoa que me serviu de pretexto (é pelo menos isto que digo a mim próprio, feliz por me elevar ao rebaixar o outro): sacrifico a imagem ao Imaginário. E se chegar o dia em que tiver que renunciar ao outro, o luto violento que então de mim se apoderar é o luto do próprio Imaginário: era uma estrutura querida e choro a perda do amor, não a deste ou daquele. (Quero lá voltar, como a sequestrada de Poitiers ao seu grande vale de Malempia.)

2. Eis portanto o outro anulado face ao amor: desta anulação retiro um lucro certo; sempre que um mal acidental me ameaça (uma ideia de ciúme, por exemplo), observo-o na magnificiência e abstracção do sentimento de amor: tranquiliza-me desejar o que, estando ausente, não me pode mais fazer mal. Imediatamente, no entanto, sofro por ver o outro (que amo) assim diminuído, reduzido e como que exluído do sentimento que suscitou. Sinto-me culpado e censuro-me por tê-lo abandonado. Dá-se uma reviravolta: procuro acabar com tal anulação, obrigo-me a sofrer de novo.


Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, traduzido por Isabel Pascoal, Edições 70, a edição original é de 1977.

De um e de dois, de todos

quarta-feira, janeiro 04, 2006
Eu sou o espectador o actor e o autor
Eu sou a mulher o seu homem o seu filho
O primeiro e o último amor
O furtivo de passagem e o amor num só

E tudo recomeça eu sou a mulher, a cama e o seu vestido
Os seus braços repartidos e o trabalho do homem
O seu prazer em flecha e o dela vaga de fundo
O meu corpo numa só e duas carnes não conhece o exílio

Pois onde começa um corpo eu tomo forma e consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso na sua forma de espera esposo o seu tormento
O seu opróbrio honra em mim o coração honra a própria vida.


Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor, tradução de Maria Gabriela Llansol, Relógio d'Água, 2002

Ligações perigosas

terça-feira, janeiro 03, 2006
Na próxima sessão do «É a cultura, estúpido!» discute-se o futuro das relações afectivas.

(Não o futuro dessa relação afectiva.)

Relato da última sessão

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Foi para falar do futuro, «terra incógnita para a ciência, mare nostrum para a literatura» (assim o descreveu José Mário Silva), que foram convidados para a última sessão de 2005, Nuno Crato e João Barreiros. Pedro Mexia moderou o debate. A conversa demorou algum tempo a começar, no fim de tarde em que o Metro parou, trazendo à superfície uma parte considerável da população de Lisboa e atrasando o início da sessão sobre «O Futuro do Futuro». Depois, porém, fluiu com graça e foi sendo interrompida pelas sugestões de leitura de José Mário Silva e Pedro Mexia, «o que não andam a ler» estes dois elementos da equipa residente do «É a cultura, estúpido!» e ainda o balanço dos discos, livros, e filmes do ano que passou.

Ciência e literatura vêem futuros diferentes — uma tentando prevê-lo e melhorá-lo, outra inventando-o e muitas vezes tornando-o mais negro. Pedro Mexia sublinhou a visão pessimista que a maioria dos escritores de Ficção Científica (FC) têm de amanhãs povoados por vírus ou máquinas destrutivas e perguntou, por isso, a João Barreiros, escritor e perito na matéria, se as distopias não seriam precisamente uma espécie de avisos literários.

João Barreiros clarificou o género explicando que há dois tipos de FC: um de que Júlio Verne é o arauto, debruça-se sobre as viagens extraordinárias e é baseado nas possibilidades do momento; o outro, onde se inscrevem romances como os de Wells, ocupa-se do futuro e é aqui que a distopia tem lugar. Esta é a visão que mais interessa a João Barreiros, a quem as utopias aborrecem ou pelo menos não oferecem potencial literário: «não acontece nada, as pessoas são felizes e terminou, ponto final». Prefere as distopias, sobretudo aquelas em que o sistema oprime o cidadão, na linha do Mil novecentos e oitenta e quatro, alertando-nos para os perigos que se podem prever. Por exemplo, é precisamente porque Ray Bradbury não quer um futuro como o de Fahrenheit 451 que escreve sobre ele.

«Nós vivemos no futuro dos nossos avós, tudo isto é cenário de FC», mas ainda assim, garante João Barreiros, «o salto tecnológico é de tal maneira vertiginoso que saltámos bem à frente do que Clarke imaginou quando disse que em 2001 estaríamos em Júpiter». Não foi por aí que o mundo mudou, o que se prevê é que caminhemos para a alteração da espécie humana (e os estados alternativos de consciência são impossíveis de descrever com rigor, o que torna tudo mais complicado). Clarke é autor do argumento do 2001 de Stanley Kubrick, e a dada altura, Pedro Mexia perguntou a João Barreiros as razões da hostilidade dos apreciadores de literatura FC relativamente ao cinema do mesmo género. Resposta: «a incoerência das histórias, a desarticulação da estrutura narrativa e o excesso de erros científicos».

Segundo Nuno Crato, as pessoas ligadas à ciência gostam de ficção científica porque diverte e porque na FC reconhecemos as nossas preocupações. Além disso, é o único domínio cultural onde se trata a ciência – a ciência, ao contrário do amor, é pouco tratada na literatura, no teatro, na música. E nos casos que contrariam este cenário, dita a regra que o cientista tem que ser apresentado como génio louco, rodeado de clichés românticos, com uma história de amor que justifique tudo o resto.

A Pedro Mexia parece-lhe que a comunidade científica tem uma grande resistência ao fenómeno editorial. António Damásio e João Magueijo saltaram para o mainstream: Damásio é acusado de praticar uma ciência light, uma espécie de ciência para os leitores da revista Xis, Magueijo é acusado de ter sucesso por ser rebelde. A Nuno Crato não lhe parece nada disto. Para ele, ambos os cientistas são simultaneamente reconhecidos e alvo de inveja.

Será o futuro a principal preocupação da ciência? Para o divulgador científico é importante que a ciência, genericamente, se desprenda da utilidade prática imediata, pelo que poderá parecer que não se importa assim tanto com o futuro. No entanto, numa tentativa de perceber o que virá, a futurologia pode usar os instrumentos da ciência. Depois, há certos ramos da ciência que se dedicam à previsão. O exemplo mais evidente é o da meteorologia, que prevê com um alcance curto (à medida que o horizonte se afasta a imprecisão é maior). Nuno Crato acha que, apesar de tudo, os cientistas em geral são optimistas, acreditam que há progresso. Há uma espécie de credo dos cientistas que diz que o mundo é inteligível e é possível compreendê-lo melhor. É evidente que a ciência progride através do erro, mas em política também se cometem erros. Além disso, no caso de Egas Moniz, usado como exemplo e acusado posteriormente de ter sido premiado e ter aberto o caminho para o erro que foram as lobotomias, o Nobel foi-lhe atribuído pela angiografia e não pela lobotomia. No que a erros diz respeito, é preciso ainda dissociar a aplicação da ciência da investigação científica. É o caso da física atómica e das células estaminais: a ideia de não fazer, de não saber nada, não vinga; até porque se a investigação não for desenvolvida por uns, sê-lo-á por outros, é impossível manter domínios intocáveis.

Depois de se ter discutido a questão da Bomba Atómica e da guerra fria, da clonagem e das bananeiras (ficámos a saber que todas as bananas que comemos são clones), Nuno Crato concluiu com outro credo dos cientistas: deste tipo investigação em áreas sensíveis podem resultar muitos males, mas também, certamente, muitos bens.

[Margarida Ferra]

O ano de 2005 (mais, do outro)

domingo, janeiro 01, 2006
Os filmes, os livros estrangeiros e portugueses de que José Mário Silva falou, aqui, entre outros.