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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Relato da última sessão

FERNANDO PESSOA, SIMPLES E COMPLEXO

Comecemos assim mesmo, in media res, a meio da coisa, quando o Pedro Mexia, que estava ali para provocar o debate que o José Mário Silva moderava, diz que Pessoa é para si o segundo melhor poeta português do século XX. Costuma dizer isto para lhe perguntarem quem é que fica então em primeiro, ao que ele responde “Vitorino Nemésio”. O diálogo fecha-se muitas vezes com um “esse também escreve poemas?” e perguntas do género. A questão que o agente provocador dirige a Richard Zenith, pessoano como outros dois dos convidados ao seu lado (Fernando Cabral Martins e Manuela Parreira da Silva), é precisamente se «não acha que Pessoa pôs na sombra poetas difíceis como é o caso de Nemésio?». Mexia aponta ainda o paradoxo de uma crítica que transforma Fernando Pessoa de difícil em impenetrável e questiona sobre o que é isso de ser um «poeta muito cerebral».

Para Richard Zenith, um grande escritor é simples e complexo, permite leituras em vários níveis. Pessoa é um poeta que os adolescentes lêem com facilidade, por exemplo, e Alberto Caeiro, que também se lê muito bem, é precisamente o mais filosófico dos heterónimos. Segundo o estudioso americano, Pessoa é sem dúvida um poeta cerebral – o verso «o que em mim está pensando» di-lo com clareza, mas há qualquer coisa para além disso quando escreve, muitas vezes também, sobre «pensar as emoções» e «sentir os pensamentos». Pode ser que Pessoa tenha feito alguma sombra a outros do seu tempo e aos que chegaram depois: quando há poetas que conquistam o público, isso desperta interesse e Fernando Pessoa acabou por ser o comboio de exportação da poesia portuguesa.

Há uma geração ensombrada por Álvaro de Campos, outra por Alberto Caeiro, considera Fernando Cabral Martins. É possível encontrar um Pessoa nacionalista, um pessoa cosmopolita e ambos em simultâneo. Fernando Pessoa é o poeta da multiplicidade, a ideia de Nietzsche de que a Verdade não existe foi assumida por ele de uma forma brutal, numa cornucópia da abundância. É precisamente pela sua variedade que escapa à canonização. Há no Pessoa um grau de produtividade que torna difícil fixar uma imagem que possa ser comercializada, apesar do merchandising.


Manuela Parreira da Silva assume uma posição diferente de Pedro Mexia quando considera os heterónimos como parte da biografia de Pessoa – Mexia, por seu lado, questiona o interesse de aproximar a heteronomia do caso mental de Fernando Pessoa. Para a organizadora do recente «Realidade e Ficção - para uma biografia epistolar de Fernando Pessoa», obra e vida cruzam-se e os heterónimos atravessam ambas: o Álvaro de Campos intervém nas cartas de amor a Ophélia, e Ophélia faz o jogo de Pessoa, dizendo-lhe «venha ter comigo mas, por favor, não traga o Álvaro de Campos». É também a publicação de cartas e outros textos que não chegam a ter valor literário que Pedro Mexia põe em causa: até que ponto vale a pena publicar estes textos que acabam por ser prejudiciais para a imagem de um autor? Em resposta, Manuela Parreira da Silva refere os dois volumes no prelo, com a poesia de Fernando Pessoa ortónimo, em que a equipa organizadora incluiu alguns poemas da juvenília, alguns não tão bons como outros escritos mais tarde, mas que permitem ter uma ideia da evolução cronológica do autor.

DOMÍNIO PÚBLICO E AGORA?

«I know not what tomorrow will bring»: foi assim, como se prometia aqui no blog, que José Mário Silva iniciou o debate do É a cultura, estúpido!, depois de duas horas de maratona de poemas lidos em voz alta, a muitas vozes, no Jardim de Inverno do São Luiz. Em 1986, a obra de Fernando Pessoa caiu pela primeira vez no domínio público, vigorava então a Lei Portuguesa que determinava que era necessário que passassem cinquenta anos sobre a morte de um autor para a livre publicação do que escreveu. Nessa altura deu-se uma explosão pessoana, também motivada pelo centenário do nascimento, comemorado em 1988. Agora, 70 anos depois da sua morte, a obra de Fernando Pessoa regressa ao domínio público, depois de um período em que os direitos de publicação voltaram a ser reservados, desta feita pela editora Assírio e Alvim. Tudo isto porque a lei europeia, que Portugal teve que adaptar, adiava em 20 anos a livre utilização da obra de um autor por toda a gente. Ora, cumpridos os anos devidos, regressando ao domínio público, será que o boom pessoano se vai repetir?

«Há muitas maneiras de editar Pessoa, não há uma certa, há várias possíveis», pensa Richard Zenith. E explica: à excepção da Mensagem, que publicou em vida, e do plano deixado por Alberto Caeiro, quanto ao resto as ideias encontradas são contraditórias. O importante é que no que se publica haja transparência, organização, e que fiquem bem claros os princípios que presidem a uma determinada edição. E não dizer «é isto que Pessoa queria, assim, desta forma». As edições da Assírio têm essa transparência e um dos pontos fortes dos livros é a fixação do texto. Essa espécie de monopólio tem o seu lado negativo: como americano, Zenith acredita que a concorrência é que é saudável, mas no saldo final, tratou-se de um período bem aproveitado.

Segundo Manuela Parreira da Silva, ainda vai haver, durante muito tempo, trabalho para quem quiser trabalhar. Está por publicar muito texto em prosa e mesmo na poesia tem havido algumas surpresas. Por exemplo, encontraram recentemente num papel de embrulho escrito com um lápis grosso, vermelho, tipo lápis de merceeiro, um poema dedicado a Artur Rimbaud, à maneira do poema de Álvaro de Campos a Walt Whitman. Foi uma descoberta inesperada, mas falta ainda decifrar uma palavra. Por vezes, opta-se por publicar textos incompletos, mas é preciso que tenham uma coerência interna. Neste ponto pode haver divergência no momento da publicação: um editor pode achar que esse texto incompleto é pertinente, outro pode achar que não.

Fernando Cabral Martins acha que o boom se pode repetir. Relembra também que Fernando Pessoa é o caso mais visível da alteração da lei, embora não seja caso único. E teve uma função bastante positiva: dar a perceber que o boom de edições, que em si mesmo é bom, conduziu a uma proliferação de edições pouco cuidadas e oportunistas. A obra de Pessoa correu o risco de implosão, numa altura em que tudo, todas as publicações eram possíveis. E logo a obra de Pessoa, uma obra especial e particular, porque fragmentária.
Para este pessoano que também estuda a edição num sentido lato, as edições de Pessoa vão envelhecer. Cada edição tem a ver com um público, com um tempo: «as edições da Ática foram feitas para uma geração de leitores diferente da que existe hoje». Daqui a trinta anos haverá uma nova geração de textos de Pessoa. Sobre isso, são muitas as dúvidas; a única coisa de que está absolutamente certo é da genialidade de Pessoa.


Sobre o futuro das edições, que livros e que leitores vamos ter, José Afonso Furtado apresentou uma pequena comunicação que disponibilizaremos brevemente aqui no blogue do É a cultura, estúpido!
Do que foi dito no Jardim de Inverno, adivinha-se que a obra de Fernando Pessoa ainda vai dar muito que ler. Por um lado, porque da arca sem fundo vão aparecendo sempre novos textos e dos antigos se vão fazendo sempre novas leituras, novos livros, novos públicos. Por outro lado, porque isto do futuro da edição parece passar pelo on-line, que se adequa especialmente bem a textos fragmentários e, por isso, pode servir como uma luva ao caleidoscópico Fernando Pessoa.

[Margarida Ferra]
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11:16 da tarde

obrigada, Margarida.    



5:33 da tarde

Será correcto tentar publicar o maior número de "coisas" de Fernando Pessoa? Por acaso muitos dos fragmentos e textos inacabados não terão sido preteridos pelo próprio autor?    



12:29 da tarde

Excelente análise e com muito para discutir, sem dúvida. Já agora aproveito para sugerir leituras de Fernando Pessoa.    



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