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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

E agora uma coisa ligeiramente diferente (3)

7. Face a este cenário, a entrada da obra de Fernando Pessoa no domínio público pode vir a ter consequências que justificam alguma preocupação. Na verdade, o carácter absolutamente singular da sua obra, interminável, fragmentária e caleidoscópica, ao ser transportada para o espaço electrónico, corre o risco de se transformar num «monstro desconjuntado», pois a Internet desenvolveu-se de um modo caótico, ainda que dinâmico, e padece hoje de uma ausência de organização global, já que os esforços de coordenação não foram além das iniciativas individuais, de importantes organizações voluntárias ou de instituições académicas. [1] A conjugação de um ambiente mercadológico que tende a valorizar os microconteúdos (e os correspondentes esquemas de micropagamentos), a possibilidade de uma relação directa entre produtores e difusores de conteúdo e os leitores/consumidores sem passar por qualquer instância de credibilização, pode originar preocupantes fenómenos de descontextualização e de desestruturação do conhecimento.Mas, por outro lado, o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão. Manuel Portela, ao introduzir a noção de Hipertexto como Metalivro, refere-se a dois trajectos cruzados, dos quais um é aqui particularmente relevante: «o trajecto definido pela transposição de formas bibliográficas para o meio digital, em particular através de edições electrónicas e de arquivos em linha de obras do património literário passado.» Portela designa esta manifestação específica da ciberliteratura como hiperedição. E acrescenta que estas potencialidades dos efeitos combinados do hipertexto e da World Wide Web pode permitir a conectividade entre fontes primárias e secundárias, o que se tornou uma característica intrínseca de muitos arquivos literários. Através de tais hiperligações, internas e externas, «muitas relações intra- e intertextuais foram formalizadas, tornando explícitas estruturas e recorrências existentes dentro do texto e dentro da cultura do texto.» Ora, a «republicação de textos como objectos electrónicos reestrutura o arquivo literário e portanto a percepção da história literária. É o que acontece quando uma hiperedição inclui as múltiplas formas que constituem o arquivo genético da produção e o arquivo social da transmissão e recepção de determinada obra ou conjunto de obras.» [2]Giulio Lughi distingue oshipertextos didactico-críticos (construídos a partir de obras literárias existentes) dos hipertextos narrativos originais. Aqueles, os didactico-críticos, utilizam a conexão de informações de documentos anteriores, com afinidades que o justifiquem, com vantagens no campo da investigação, facilitando a consulta de documentos e livros, não implicando que esses livros abdiquem da sua integridade e existência física, mas que encontram enormes mais-valias ao serem digitalizados e sobrecodificados em linguagens e protocolos hipertextuais.[3]

8. É neste sentido que têm surgido produtos escolares especializados e que têm vindo a ser produzidos recursos de pesquisa electrónica por grupos de académicos no âmbito universitário, sobretudo devido a acções mecenáticas. Contudo, apesar do fascinante trabalho desenvolvido, não se encontram indícios fortes, na área das humanidades, de que a cultura de investigação se tenha alterado de modo a acomodar a utilização dessas publicações, embora alguns produtos electrónicos como Chadwyck-Healey Literature Online seja usado a nível universitário para apoio ao ensino e à investigação. O exemplo paradigmático deste tipo de recursos é The Rossetti Archive[4],dedicado à obra de Dante Gabriel Rossetti.O responsável por este impressionante trabalho é Jerome McGann, professor da Universidade da Virginia e cujos esforços na utilização da tecnologia na área das humanidades foi reconhecido pela atribuição do Prémio Richard W. Lyman, em 2002, pelo National Humanities Center. A sua extensa bibliografia inclui obras decisivas no campo dos estudos textuais contemporâneos, particularmente relacionados com os problemas editoriais colocados por títulos dos períodos Romântico, Vitoriano e Modernista. A argumentação de McGann desenvolve-se em vários pontos [5]: em primeiro lugar, reconhece-se que as edições académicas constituem os intrumentos fundamentais para os estudos literários. A sua evolução correspondeu à complexidade de algumas obras literárias, especialmente aquelas que se desenvolveram durante um longo processo histórico (a Bíblia, Homero, as peças de Shakespeare). Para tratar estas obras os investigadores recorreram a várias formas: edições facsimiladas, edições críticas, edições com extensas notas e com materiais de contextualização para clarificar o significado das obras. As limitações inerentes ao livro impresso determinaram o desenvolvimento das formas estruturais destes diferentes mecanismos, do mesmo modo que obrigaram à preparação regular de novas edições à medida que elementos relevantes surgiam ou que novos interesses despertavam. Assim, no que se refere à edição e aos estudos textuais, as características do códice apresentam sérias dificuldades: uma nova edição implica a duplicação de todo o processo produtivo e as necessárias adições ou modificações da obra. McGann considera que estes problemas se devem ao facto de se usar a forma-livro para estudar outra forma-livro. Esta simetria entre o instrumento e o seu objecto força o investigador a recorrer a mecanismos analíticos que devem ser apresentados e empregues no nível primário de leitura: estrutura do aparato, bibliografias descritivas, variantes, formas condensadas de referências, etc. Em síntese, a edição em fomato de códice gera um arquivo de livros e material relacionado e este arquivo desenvolve de seguida as suas próprias meta-estruturas – indexação e outros mecanismos de estudo – para facilitar a sua navegação e análise. Para McGann, o problema crucial é simples: as estruturas lógicas da «edição crítica» funcionam ao mesmo nível do material que está a ser analisado. O resultado disso é que as capacidades das estruturas lógicas são severamente limitadas ao serem forçadas a operar em formato livro, e por isso os arquivos encontram-se «afogados num branco mar de papel.»

Ao invés, a utilização de suportes digitais permite-nos ler documentos «físicos» num ambiente espacio-temporal virtual. E isto quer sejam «marked up» para análise e pesquisa electrónica quer sejam organizados de modo hipertextual. Quando um livro é transferido para forma electrónica, as suas características semânticas e visuais podem ser presentes em simultâneo, não necessitando de ser lido no quadro do tempo e espaço estabelecido pelas características materiais do livro. Se os materiais físicos transferidos incluirem um largo conjunto de livros e documentos, o poder dessa translação surge ainda com mais força, já que todos esses livros e documentos separados podem também ser apresentados em simultâneo bem como, aliás, todas as partes dos documentos.

Este é no essencial o argumentário que levará ao aparecimento do The Rossetti Archive, definido como um instrumento hipertextual concebido para facilitar o estudo académico e a investigação em torno da figura de Dante Gabriel Rossetti, nas suas facetas de escritor, pintor, desenhador e tradutor. Tal como se pode ler na Introduction to the Interim Redesign do Archive, ele integra, para além da totalidade da sua obra original pictórica e textual, larga soma de materiais de contextualização, na sua maioria relativos ao período da sua actividade (aproximadamente entre 1848 e 1920), mas que nalguns casos podem recuar às fontes do século XIV utilizadas nas suas traduções italianas.Todos estes documentos estão codificados de modo a permitir uma análise e pesquisa integral e estruturada. Adicionalmente, incluem-se imagens digitais de elevada resolução e qualidade de todos os documentos existentes e que representam as obras de Rossetti nas suas diversas instâncias: todos os manuscritos, provas e edições originais bem como todos os desenhos, pinturas e diverso material gráfico. Estes materiais primários são acompanhados por um corpus substancial de comentários, notas e interpretações que elucidam os documentos e as obras que suportam.Em conclusão, os hipertextos permitem-nos navegar através de grandes massas de documentos e ligar esses documentos, ou partes deles, de modos complexos. As relações podem ser definidas previamente ou podem ser desenvolvidas «on the fly» (através de relações criadas na marcação SGML de uma obra). Estas redes documentais podem ser organizadas interactivamente (permitindo inputs do leitor/utilizador). Podem ser distribuídas de uma forma auto-contida (por exemplo, em discos CD-ROM) ou podem ser estruturadas para transmissão através da Rede. Neste caso, a estrutura hipertextual básica apresenta maior capacidade (mas não um nível mais elevado): uma estrutura de rede (como a World Wide Web) de hipertextos locais abre para uma rede de redes.[6] McGann chama a atenção, no entanto, para dois aspectos. Em primeiro lugar, o projecto Rossetti é um arquivo, não é uma edição, e por isso pode escapar às limitações bibliográficas típicas do livro objecto. Foi construído de modo a que os seus conteúdos e a sua rede de relações (quer internas quer externas) possam ser expandidas e desenvolvidas sem limites. Em segundo lugar, as suas observações só se podem aplicar a obras textuais que sejam instrumentos de conhecimento científico.

[1] Esta preocupação é bem evidente em Luciano Floridi - Philosophy and Computing. An introduction. New York: Routledge, 1999.

[2]Manuel Portela - «Hipertexto como Metalivro», Maio 2003. URL: http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_05.html>.

[3]Giulio Lughi - «Ipertesti letterari e labirinti narrativi», Igitur, V, n.2 (luglio-dicembre), 1993.

[4] Acessível em htt://www.rossettiarchive.org

[5] Seguimos a partir de aqui o ensaio de Jerome McGann - The Rationale of HyperText, disponível no site do Institute for Advanced Technology in the Humanities da Virginia University: http://www.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html..

[6]Jerome McGann - Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave, 2001, p.56-7

Continua...
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