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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

E agora para uma coisa ligeiramente diferente (4)

8. As vantagens das bases de dados hipermedia em termos de modos de organização de armazenamento e de acesso, em comparação com as versões impressas são inegáveis, como refere Brigitte Juanals: multiplicação dos pontos de acesso no corpus, automatização das ligações, utilização de filtros semânticos, cruzamento de critérios (opções de pesquisa avançadas), utilização de operadores booleanos para efectuar pesquisas multicritérios, imediatez e possibilidades de refinamento dos resultados. Mas se a possibilidade de automatização das ligações calculadas e geradas pelo software torna possível o acesso em todos os pontos a imensas bases de dados, isso acontece, no entanto, «em detrimento de um ambiente semântico que o leitor se vai ver forçado e reconstruir. Mais ainda, estas técnicas estavam até agora reservadas a utilizações e a públicos profissionais e a sua disponibilização em obras destinadas ao grande público faz com que surjam os problemas referentes à sua utilização adaptada e eficaz.»[1]

Encontramo-nos pois numa encruzilhada. Tecnologia e cultura conjugaram-se para suscitar uma transformação no mundo dos conteúdos. Este novo mundo é abundante e desestruturado e são escassos os mecanismos de contextualização para navegação e para sintetizar a informação.

Assim, se é certo que o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão, por outro lado a revolução electrónica exige certamente uma extensão das competências tradicionais, pois deparamos-nos com um novo tipo de literacia, que já não se caracteriza apenas pelas competências de ler e escrever, mas pela facilidade de acesso e capacidade de manipulação dos media digitais pelos quais a escrita é agora também transmitida. Torna-se assim indispensável que as pessoas estejam em condições de «combinar as competências da literacia crítica dos media com a tradicional literacia do impressso e com as novas formas da literacia múltipla»[2] para aceder e navegar nos novos ambientes multimedia.

José Afonso Furtado

Nota: Este texto foi inicialmente apresentado na sessão de É a cultura, estúpido! de 30 de Novembro de 2005, dedicada a Fernando Pessoa, na ocasião dos 70 anos da sua morte e da queda da sua obra no domínio público. Foram introduzidas algumas alterações e mais desenvolvido o ponto referente ao arquivos literários em ambiente digital, o que se deve a uma questão então colocada pelo moderador da sessão, José Mário Silva.



[1] Brigitte Juanals - «L'écrit et L'écran», Captain-doc, mars 2001. URL: <http://www.captaindoc.com/interviews/interviews08.html.>

[2] Douglas M. Kellner - «Technological Revolution, Multiple Literacies, and the Restructuring of Education». In: Ilana Snyder (ed.) - Silicon Literacies. Communication, Innovation and Education in the Electronic Age. London and New York: Routledge, 2002, pp.158-163.

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