

Encontramo-nos pois numa encruzilhada. Tecnologia e cultura conjugaram-se para suscitar uma transformação no mundo dos conteúdos. Este novo mundo é abundante e desestruturado e são escassos os mecanismos de contextualização para navegação e para sintetizar a informação.
Assim, se é certo que o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão, por outro lado a revolução electrónica exige certamente uma extensão das competências tradicionais, pois deparamos-nos com um novo tipo de literacia, que já não se caracteriza apenas pelas competências de ler e escrever, mas pela facilidade de acesso e capacidade de manipulação dos media digitais pelos quais a escrita é agora também transmitida. Torna-se assim indispensável que as pessoas estejam em condições de «combinar as competências da literacia crítica dos media com a tradicional literacia do impressso e com as novas formas da literacia múltipla»[2] para aceder e navegar nos novos ambientes multimedia.
José Afonso Furtado
[1] Brigitte Juanals - «L'écrit et L'écran», Captain-doc, mars 2001. URL: <http://www.captaindoc.com/interviews/interviews08.html.>
[2] Douglas M. Kellner - «Technological Revolution, Multiple Literacies, and the Restructuring of Education». In: Ilana Snyder (ed.) - Silicon Literacies. Communication, Innovation and Education in the Electronic Age.
7. Face a este cenário, a entrada da obra de Fernando Pessoa no domínio público pode vir a ter consequências que justificam alguma preocupação. Na verdade, o carácter absolutamente singular da sua obra, interminável, fragmentária e caleidoscópica, ao ser transportada para o espaço electrónico, corre o risco de se transformar num «monstro desconjuntado», pois a Internet desenvolveu-se de um modo caótico, ainda que dinâmico, e padece hoje de uma ausência de organização global, já que os esforços de coordenação não foram além das iniciativas individuais, de importantes organizações voluntárias ou de instituições académicas. [1] A conjugação de um ambiente mercadológico que tende a valorizar os microconteúdos (e os correspondentes esquemas de micropagamentos), a possibilidade de uma relação directa entre produtores e difusores de conteúdo e os leitores/consumidores sem passar por qualquer instância de credibilização, pode originar preocupantes fenómenos de descontextualização e de desestruturação do conhecimento.Mas, por outro lado, o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão. Manuel Portela, ao introduzir a noção de Hipertexto como Metalivro, refere-se a dois trajectos cruzados, dos quais um é aqui particularmente relevante: «o trajecto definido pela transposição de formas bibliográficas para o meio digital, em particular através de edições electrónicas e de arquivos em linha de obras do património literário passado.» Portela designa esta manifestação específica da ciberliteratura como hiperedição. E acrescenta que estas potencialidades dos efeitos combinados do hipertexto e da World Wide Web pode permitir a conectividade entre fontes primárias e secundárias, o que se tornou uma característica intrínseca de muitos arquivos literários. Através de tais hiperligações, internas e externas, «muitas relações intra- e intertextuais foram formalizadas, tornando explícitas estruturas e recorrências existentes dentro do texto e dentro da cultura do texto.» Ora, a «republicação de textos como objectos electrónicos reestrutura o arquivo literário e portanto a percepção da história literária. É o que acontece quando uma hiperedição inclui as múltiplas formas que constituem o arquivo genético da produção e o arquivo social da transmissão e recepção de determinada obra ou conjunto de obras.» [2]Giulio Lughi distingue oshipertextos didactico-críticos (construídos a partir de obras literárias existentes) dos hipertextos narrativos originais. Aqueles, os didactico-críticos, utilizam a conexão de informações de documentos anteriores, com afinidades que o justifiquem, com vantagens no campo da investigação, facilitando a consulta de documentos e livros, não implicando que esses livros abdiquem da sua integridade e existência física, mas que encontram enormes mais-valias ao serem digitalizados e sobrecodificados em linguagens e protocolos hipertextuais.[3]
8. É neste sentido que têm surgido produtos escolares especializados e que têm vindo a ser produzidos recursos de pesquisa electrónica por grupos de académicos no âmbito universitário, sobretudo devido a acções mecenáticas. Contudo, apesar do fascinante trabalho desenvolvido, não se encontram indícios fortes, na área das humanidades, de que a cultura de investigação se tenha alterado de modo a acomodar a utilização dessas publicações, embora alguns produtos electrónicos como Chadwyck-Healey Literature Online seja usado a nível universitário para apoio ao ensino e à investigação. O exemplo paradigmático deste tipo de recursos é The Rossetti Archive[4],dedicado à obra de Dante Gabriel Rossetti.O responsável por este impressionante trabalho é Jerome McGann, professor da Universidade da Virginia e cujos esforços na utilização da tecnologia na área das humanidades foi reconhecido pela atribuição do Prémio Richard W. Lyman, em 2002, pelo National Humanities Center. A sua extensa bibliografia inclui obras decisivas no campo dos estudos textuais contemporâneos, particularmente relacionados com os problemas editoriais colocados por títulos dos períodos Romântico, Vitoriano e Modernista. A argumentação de McGann desenvolve-se em vários pontos [5]: em primeiro lugar, reconhece-se que as edições académicas constituem os intrumentos fundamentais para os estudos literários. A sua evolução correspondeu à complexidade de algumas obras literárias, especialmente aquelas que se desenvolveram durante um longo processo histórico (a Bíblia, Homero, as peças de Shakespeare). Para tratar estas obras os investigadores recorreram a várias formas: edições facsimiladas, edições críticas, edições com extensas notas e com materiais de contextualização para clarificar o significado das obras. As limitações inerentes ao livro impresso determinaram o desenvolvimento das formas estruturais destes diferentes mecanismos, do mesmo modo que obrigaram à preparação regular de novas edições à medida que elementos relevantes surgiam ou que novos interesses despertavam. Assim, no que se refere à edição e aos estudos textuais, as características do códice apresentam sérias dificuldades: uma nova edição implica a duplicação de todo o processo produtivo e as necessárias adições ou modificações da obra. McGann considera que estes problemas se devem ao facto de se usar a forma-livro para estudar outra forma-livro. Esta simetria entre o instrumento e o seu objecto força o investigador a recorrer a mecanismos analíticos que devem ser apresentados e empregues no nível primário de leitura: estrutura do aparato, bibliografias descritivas, variantes, formas condensadas de referências, etc. Em síntese, a edição em fomato de códice gera um arquivo de livros e material relacionado e este arquivo desenvolve de seguida as suas próprias meta-estruturas – indexação e outros mecanismos de estudo – para facilitar a sua navegação e análise. Para McGann, o problema crucial é simples: as estruturas lógicas da «edição crítica» funcionam ao mesmo nível do material que está a ser analisado. O resultado disso é que as capacidades das estruturas lógicas são severamente limitadas ao serem forçadas a operar em formato livro, e por isso os arquivos encontram-se «afogados num branco mar de papel.»
Ao invés, a utilização de suportes digitais permite-nos ler documentos «físicos» num ambiente espacio-temporal virtual. E isto quer sejam «marked up» para análise e pesquisa electrónica quer sejam organizados de modo hipertextual. Quando um livro é transferido para forma electrónica, as suas características semânticas e visuais podem ser presentes em simultâneo, não necessitando de ser lido no quadro do tempo e espaço estabelecido pelas características materiais do livro. Se os materiais físicos transferidos incluirem um largo conjunto de livros e documentos, o poder dessa translação surge ainda com mais força, já que todos esses livros e documentos separados podem também ser apresentados em simultâneo bem como, aliás, todas as partes dos documentos.
Este é no essencial o argumentário que levará ao aparecimento do The Rossetti Archive, definido como um instrumento hipertextual concebido para facilitar o estudo académico e a investigação em torno da figura de Dante Gabriel Rossetti, nas suas facetas de escritor, pintor, desenhador e tradutor. Tal como se pode ler na Introduction to the Interim Redesign do Archive, ele integra, para além da totalidade da sua obra original pictórica e textual, larga soma de materiais de contextualização, na sua maioria relativos ao período da sua actividade (aproximadamente entre 1848 e 1920), mas que nalguns casos podem recuar às fontes do século XIV utilizadas nas suas traduções italianas.Todos estes documentos estão codificados de modo a permitir uma análise e pesquisa integral e estruturada. Adicionalmente, incluem-se imagens digitais de elevada resolução e qualidade de todos os documentos existentes e que representam as obras de Rossetti nas suas diversas instâncias: todos os manuscritos, provas e edições originais bem como todos os desenhos, pinturas e diverso material gráfico. Estes materiais primários são acompanhados por um corpus substancial de comentários, notas e interpretações que elucidam os documentos e as obras que suportam.Em conclusão, os hipertextos permitem-nos navegar através de grandes massas de documentos e ligar esses documentos, ou partes deles, de modos complexos. As relações podem ser definidas previamente ou podem ser desenvolvidas «on the fly» (através de relações criadas na marcação SGML de uma obra). Estas redes documentais podem ser organizadas interactivamente (permitindo inputs do leitor/utilizador). Podem ser distribuídas de uma forma auto-contida (por exemplo, em discos CD-ROM) ou podem ser estruturadas para transmissão através da Rede. Neste caso, a estrutura hipertextual básica apresenta maior capacidade (mas não um nível mais elevado): uma estrutura de rede (como a World Wide Web) de hipertextos locais abre para uma rede de redes.[6] McGann chama a atenção, no entanto, para dois aspectos. Em primeiro lugar, o projecto Rossetti é um arquivo, não é uma edição, e por isso pode escapar às limitações bibliográficas típicas do livro objecto. Foi construído de modo a que os seus conteúdos e a sua rede de relações (quer internas quer externas) possam ser expandidas e desenvolvidas sem limites. Em segundo lugar, as suas observações só se podem aplicar a obras textuais que sejam instrumentos de conhecimento científico.Charles Dickens, A Christmas Carol
5. Nesta fase de transição, se existem oportunidades aliciantes para o sector do livro, não se pode contudo deixar de referir alguns pontos que constituem riscos potenciais para a edição ou para o leitor, certamente mais para este, e que nalguns casos tendem a romper um equilíbrio de poderes sabiamente sedimentado ao longo da história do livro entre os consumidores individuais e as casas editoras. Uma boa parte deles tem a ver com o facto de a publicações electrónicas exigirem uma mediação tecnológica que é basicamente estranha ao mundo do livro. Na verdade, em todos os suportes históricos da escrita o leitor pode aceder visualmente ao texto sem qualquer outro procedimento. Em contrapartida, a leitura em écrã é tributária de duas condições indispensáveis: a) Por um lado, é necessário um dispositivo técnico que permita transformar os dados ilegíveis registados na matéria memória num texto legível num écrã. b) Por outro, uma fonte de energia para alimentar esse dispositivo. Ou seja, sem energia e sem dispositivo técnico apropriado a escrita informática não existe ou, no máximo, pode ser considerada como invisível.
Diversos autores (e com particular ênfase Roger Chartier) têm manifestado alguma preocupação com o desaparecimento dos critérios antigos que permitiam distinguir, classificar e hierarquizar os discursos. Como no mundo digital todos os textos são dados a ler num mesmo suporte (o écrã de um computador) e nas mesmas formas, cria-se um continuum que já não diferencia os diversos géneros ou repertórios textuais, doravante semelhantes na sua aparência e equivalentes na sua autoridade. Esta situação ocasiona efeitos nada despiciendos sobre a propria noção de «livro» tal como ainda o entendemos, ou seja, como um objecto específico, diferente dos outros suportes de escrita e como unidades textuais dotados de uma identidade própria. Assim, perante a força homogeneizante do dispositivo de recepção é indispensável a capacidade de saber «qualificar» os textos enquanto produções culturais, sob pena de lidarmos com uma matéria informacional indistinta.
Por outro lado, se a Internet aparece como uma espécie de utopia realizada, essa maior liberdade conferida ao indivíduo, que nela pode difundir os textos que entender, tem como contrapartida uma grande precaridade institucional. A Internet escapa aos mecanismos e dispositivos tradicionais de institucionalização dos textos pois torna-se difícil garantir a autoridade, e mesmo a autenticidade, do que aparece na Web.
Por fim, verifica-se uma ligação evidente entre a crescente convergência de formas diversificadas, não só textuais, e a importância que o fragmento tem vindo a assumir em termos epistemológicos, sociais e da economia da edição. O que se deve, nos termos de Chartier, ao esboroar dessa ligação tradicional, estrita e absoluta, entre livro e obra. Da perspectiva da economia da edição, este novo modelo tem os seus aliciantes óbvios. Em termos empresariais é quase irresistível vender já não livros mas fragmentos. A ideia passa pelo facto de praticamente todos os editores terem direitos sobre muitos livros que, se desintegrados, contêm fragmentos que encontrarão um mercado à medida que se difundirem as práticas de distribuição digital e as capacidades de impressão a pedido. Verifica-se pois uma atomização crescente dos interesses em matéria de conteúdos e das publicações daí resultantes, o que se deve ao entrechocar de várias forças: o crescente interesse pela criação e distribuição conteúdo, a nível formal e informal; a disponibilização de tecnologias que permitem a edição a nível individual e social; uma progressiva mercantilização do conteúdo; e a aceitação cada vez mais fácil de informação oriunda de fontes «não fidedignas».
Para Richard Zenith, um grande escritor é simples e complexo, permite leituras em vários níveis. Pessoa é um poeta que os adolescentes lêem com facilidade, por exemplo, e Alberto Caeiro, que também se lê muito bem, é precisamente o mais filosófico dos heterónimos. Segundo o estudioso americano, Pessoa é sem dúvida um poeta cerebral – o verso «o que em mim está pensando» di-lo com clareza, mas há qualquer coisa para além disso quando escreve, muitas vezes também, sobre «pensar as emoções» e «sentir os pensamentos». Pode ser que Pessoa tenha feito alguma sombra a outros do seu tempo e aos que chegaram depois: quando há poetas que conquistam o público, isso desperta interesse e Fernando Pessoa acabou por ser o comboio de exportação da poesia portuguesa. 
«I know not what tomorrow will bring»: foi assim, como se prometia aqui no blog, que José Mário Silva iniciou o debate do É a cultura, estúpido!, depois de duas horas de maratona de poemas lidos em voz alta, a muitas vozes, no Jardim de Inverno do São Luiz. Em 1986, a obra de Fernando Pessoa caiu pela primeira vez no domínio público, vigorava então a Lei Portuguesa que determinava que era necessário que passassem cinquenta anos sobre a morte de um autor para a livre publicação do que escreveu. Nessa altura deu-se uma explosão pessoana, também motivada pelo centenário do nascimento, comemorado em 1988. Agora, 70 anos depois da sua morte, a obra de Fernando Pessoa regressa ao domínio público, depois de um período em que os direitos de publicação voltaram a ser reservados, desta feita pela editora Assírio e Alvim. Tudo isto porque a lei europeia, que Portugal teve que adaptar, adiava em 20 anos a livre utilização da obra de um autor por toda a gente. Ora, cumpridos os anos devidos, regressando ao domínio público, será que o boom pessoano se vai repetir? 