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É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

O ano de 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005
Os livros, filmes e discos de que o Pedro Mexia falou na sessão do «É a cultura, estúpido!», mais uma mão cheia deles, aqui.

Ontem, no Jardim de Inverno

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Os convidados do «É a cultura, estúpido!», Nuno Crato e João Barreiros. Entre a ciência e a ficção, falou-se de ideias para o futuro.

«We are all interested in the future, for that is where you and I are going to spend the rest of our lives»
(de Plan 9 From Outer Space, Edward Wood, 1959, citado ontem por João Barreiros).


Pedro Mexia e José Mário Silva fizeram o balanço do ano de 2005 no que respeita a livros, discos e filmes, e falaram do que não vão ler em 2006. Publicaremos aqui as sugestões que deixaram ontem no São Luiz.

Press-release

segunda-feira, dezembro 26, 2005
Na próxima quarta-feira, dia 28 de Dezembro, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai incluir um balanço cultural do ano de 2005, feito por José Mário Silva e Pedro Mexia. Na rubrica "O que não ando a ler" os moderadores falarão dos livros que não leram em 2005 e dos que não tencionam ler em 2006. No tema do mês vamos tentar compreender se o futuro terá futuro quando o futuro for presente. Para discutir esta questão, nos seus aspectos científicos, filosóficos, práticos ou nem por isso, estarão presentes na mesa Nuno Crato (matemático e divulgador de ciência) e João Barreiros (autor de Ficção Científica e especialista deste género literário). A conversa será moderada por Pedro Mexia e José Mário Silva desempenhará a função de "agente provocador".

E agora para uma coisa ligeiramente diferente (4)

sábado, dezembro 24, 2005

8. As vantagens das bases de dados hipermedia em termos de modos de organização de armazenamento e de acesso, em comparação com as versões impressas são inegáveis, como refere Brigitte Juanals: multiplicação dos pontos de acesso no corpus, automatização das ligações, utilização de filtros semânticos, cruzamento de critérios (opções de pesquisa avançadas), utilização de operadores booleanos para efectuar pesquisas multicritérios, imediatez e possibilidades de refinamento dos resultados. Mas se a possibilidade de automatização das ligações calculadas e geradas pelo software torna possível o acesso em todos os pontos a imensas bases de dados, isso acontece, no entanto, «em detrimento de um ambiente semântico que o leitor se vai ver forçado e reconstruir. Mais ainda, estas técnicas estavam até agora reservadas a utilizações e a públicos profissionais e a sua disponibilização em obras destinadas ao grande público faz com que surjam os problemas referentes à sua utilização adaptada e eficaz.»[1]

Encontramo-nos pois numa encruzilhada. Tecnologia e cultura conjugaram-se para suscitar uma transformação no mundo dos conteúdos. Este novo mundo é abundante e desestruturado e são escassos os mecanismos de contextualização para navegação e para sintetizar a informação.

Assim, se é certo que o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão, por outro lado a revolução electrónica exige certamente uma extensão das competências tradicionais, pois deparamos-nos com um novo tipo de literacia, que já não se caracteriza apenas pelas competências de ler e escrever, mas pela facilidade de acesso e capacidade de manipulação dos media digitais pelos quais a escrita é agora também transmitida. Torna-se assim indispensável que as pessoas estejam em condições de «combinar as competências da literacia crítica dos media com a tradicional literacia do impressso e com as novas formas da literacia múltipla»[2] para aceder e navegar nos novos ambientes multimedia.

José Afonso Furtado

Nota: Este texto foi inicialmente apresentado na sessão de É a cultura, estúpido! de 30 de Novembro de 2005, dedicada a Fernando Pessoa, na ocasião dos 70 anos da sua morte e da queda da sua obra no domínio público. Foram introduzidas algumas alterações e mais desenvolvido o ponto referente ao arquivos literários em ambiente digital, o que se deve a uma questão então colocada pelo moderador da sessão, José Mário Silva.



[1] Brigitte Juanals - «L'écrit et L'écran», Captain-doc, mars 2001. URL: <http://www.captaindoc.com/interviews/interviews08.html.>

[2] Douglas M. Kellner - «Technological Revolution, Multiple Literacies, and the Restructuring of Education». In: Ilana Snyder (ed.) - Silicon Literacies. Communication, Innovation and Education in the Electronic Age. London and New York: Routledge, 2002, pp.158-163.

E agora uma coisa ligeiramente diferente (3)

7. Face a este cenário, a entrada da obra de Fernando Pessoa no domínio público pode vir a ter consequências que justificam alguma preocupação. Na verdade, o carácter absolutamente singular da sua obra, interminável, fragmentária e caleidoscópica, ao ser transportada para o espaço electrónico, corre o risco de se transformar num «monstro desconjuntado», pois a Internet desenvolveu-se de um modo caótico, ainda que dinâmico, e padece hoje de uma ausência de organização global, já que os esforços de coordenação não foram além das iniciativas individuais, de importantes organizações voluntárias ou de instituições académicas. [1] A conjugação de um ambiente mercadológico que tende a valorizar os microconteúdos (e os correspondentes esquemas de micropagamentos), a possibilidade de uma relação directa entre produtores e difusores de conteúdo e os leitores/consumidores sem passar por qualquer instância de credibilização, pode originar preocupantes fenómenos de descontextualização e de desestruturação do conhecimento.Mas, por outro lado, o surto da edição electrónica tem potencialidades inestimáveis que permitem introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão. Manuel Portela, ao introduzir a noção de Hipertexto como Metalivro, refere-se a dois trajectos cruzados, dos quais um é aqui particularmente relevante: «o trajecto definido pela transposição de formas bibliográficas para o meio digital, em particular através de edições electrónicas e de arquivos em linha de obras do património literário passado.» Portela designa esta manifestação específica da ciberliteratura como hiperedição. E acrescenta que estas potencialidades dos efeitos combinados do hipertexto e da World Wide Web pode permitir a conectividade entre fontes primárias e secundárias, o que se tornou uma característica intrínseca de muitos arquivos literários. Através de tais hiperligações, internas e externas, «muitas relações intra- e intertextuais foram formalizadas, tornando explícitas estruturas e recorrências existentes dentro do texto e dentro da cultura do texto.» Ora, a «republicação de textos como objectos electrónicos reestrutura o arquivo literário e portanto a percepção da história literária. É o que acontece quando uma hiperedição inclui as múltiplas formas que constituem o arquivo genético da produção e o arquivo social da transmissão e recepção de determinada obra ou conjunto de obras.» [2]Giulio Lughi distingue oshipertextos didactico-críticos (construídos a partir de obras literárias existentes) dos hipertextos narrativos originais. Aqueles, os didactico-críticos, utilizam a conexão de informações de documentos anteriores, com afinidades que o justifiquem, com vantagens no campo da investigação, facilitando a consulta de documentos e livros, não implicando que esses livros abdiquem da sua integridade e existência física, mas que encontram enormes mais-valias ao serem digitalizados e sobrecodificados em linguagens e protocolos hipertextuais.[3]

8. É neste sentido que têm surgido produtos escolares especializados e que têm vindo a ser produzidos recursos de pesquisa electrónica por grupos de académicos no âmbito universitário, sobretudo devido a acções mecenáticas. Contudo, apesar do fascinante trabalho desenvolvido, não se encontram indícios fortes, na área das humanidades, de que a cultura de investigação se tenha alterado de modo a acomodar a utilização dessas publicações, embora alguns produtos electrónicos como Chadwyck-Healey Literature Online seja usado a nível universitário para apoio ao ensino e à investigação. O exemplo paradigmático deste tipo de recursos é The Rossetti Archive[4],dedicado à obra de Dante Gabriel Rossetti.O responsável por este impressionante trabalho é Jerome McGann, professor da Universidade da Virginia e cujos esforços na utilização da tecnologia na área das humanidades foi reconhecido pela atribuição do Prémio Richard W. Lyman, em 2002, pelo National Humanities Center. A sua extensa bibliografia inclui obras decisivas no campo dos estudos textuais contemporâneos, particularmente relacionados com os problemas editoriais colocados por títulos dos períodos Romântico, Vitoriano e Modernista. A argumentação de McGann desenvolve-se em vários pontos [5]: em primeiro lugar, reconhece-se que as edições académicas constituem os intrumentos fundamentais para os estudos literários. A sua evolução correspondeu à complexidade de algumas obras literárias, especialmente aquelas que se desenvolveram durante um longo processo histórico (a Bíblia, Homero, as peças de Shakespeare). Para tratar estas obras os investigadores recorreram a várias formas: edições facsimiladas, edições críticas, edições com extensas notas e com materiais de contextualização para clarificar o significado das obras. As limitações inerentes ao livro impresso determinaram o desenvolvimento das formas estruturais destes diferentes mecanismos, do mesmo modo que obrigaram à preparação regular de novas edições à medida que elementos relevantes surgiam ou que novos interesses despertavam. Assim, no que se refere à edição e aos estudos textuais, as características do códice apresentam sérias dificuldades: uma nova edição implica a duplicação de todo o processo produtivo e as necessárias adições ou modificações da obra. McGann considera que estes problemas se devem ao facto de se usar a forma-livro para estudar outra forma-livro. Esta simetria entre o instrumento e o seu objecto força o investigador a recorrer a mecanismos analíticos que devem ser apresentados e empregues no nível primário de leitura: estrutura do aparato, bibliografias descritivas, variantes, formas condensadas de referências, etc. Em síntese, a edição em fomato de códice gera um arquivo de livros e material relacionado e este arquivo desenvolve de seguida as suas próprias meta-estruturas – indexação e outros mecanismos de estudo – para facilitar a sua navegação e análise. Para McGann, o problema crucial é simples: as estruturas lógicas da «edição crítica» funcionam ao mesmo nível do material que está a ser analisado. O resultado disso é que as capacidades das estruturas lógicas são severamente limitadas ao serem forçadas a operar em formato livro, e por isso os arquivos encontram-se «afogados num branco mar de papel.»

Ao invés, a utilização de suportes digitais permite-nos ler documentos «físicos» num ambiente espacio-temporal virtual. E isto quer sejam «marked up» para análise e pesquisa electrónica quer sejam organizados de modo hipertextual. Quando um livro é transferido para forma electrónica, as suas características semânticas e visuais podem ser presentes em simultâneo, não necessitando de ser lido no quadro do tempo e espaço estabelecido pelas características materiais do livro. Se os materiais físicos transferidos incluirem um largo conjunto de livros e documentos, o poder dessa translação surge ainda com mais força, já que todos esses livros e documentos separados podem também ser apresentados em simultâneo bem como, aliás, todas as partes dos documentos.

Este é no essencial o argumentário que levará ao aparecimento do The Rossetti Archive, definido como um instrumento hipertextual concebido para facilitar o estudo académico e a investigação em torno da figura de Dante Gabriel Rossetti, nas suas facetas de escritor, pintor, desenhador e tradutor. Tal como se pode ler na Introduction to the Interim Redesign do Archive, ele integra, para além da totalidade da sua obra original pictórica e textual, larga soma de materiais de contextualização, na sua maioria relativos ao período da sua actividade (aproximadamente entre 1848 e 1920), mas que nalguns casos podem recuar às fontes do século XIV utilizadas nas suas traduções italianas.Todos estes documentos estão codificados de modo a permitir uma análise e pesquisa integral e estruturada. Adicionalmente, incluem-se imagens digitais de elevada resolução e qualidade de todos os documentos existentes e que representam as obras de Rossetti nas suas diversas instâncias: todos os manuscritos, provas e edições originais bem como todos os desenhos, pinturas e diverso material gráfico. Estes materiais primários são acompanhados por um corpus substancial de comentários, notas e interpretações que elucidam os documentos e as obras que suportam.Em conclusão, os hipertextos permitem-nos navegar através de grandes massas de documentos e ligar esses documentos, ou partes deles, de modos complexos. As relações podem ser definidas previamente ou podem ser desenvolvidas «on the fly» (através de relações criadas na marcação SGML de uma obra). Estas redes documentais podem ser organizadas interactivamente (permitindo inputs do leitor/utilizador). Podem ser distribuídas de uma forma auto-contida (por exemplo, em discos CD-ROM) ou podem ser estruturadas para transmissão através da Rede. Neste caso, a estrutura hipertextual básica apresenta maior capacidade (mas não um nível mais elevado): uma estrutura de rede (como a World Wide Web) de hipertextos locais abre para uma rede de redes.[6] McGann chama a atenção, no entanto, para dois aspectos. Em primeiro lugar, o projecto Rossetti é um arquivo, não é uma edição, e por isso pode escapar às limitações bibliográficas típicas do livro objecto. Foi construído de modo a que os seus conteúdos e a sua rede de relações (quer internas quer externas) possam ser expandidas e desenvolvidas sem limites. Em segundo lugar, as suas observações só se podem aplicar a obras textuais que sejam instrumentos de conhecimento científico.

[1] Esta preocupação é bem evidente em Luciano Floridi - Philosophy and Computing. An introduction. New York: Routledge, 1999.

[2]Manuel Portela - «Hipertexto como Metalivro», Maio 2003. URL: http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_05.html>.

[3]Giulio Lughi - «Ipertesti letterari e labirinti narrativi», Igitur, V, n.2 (luglio-dicembre), 1993.

[4] Acessível em htt://www.rossettiarchive.org

[5] Seguimos a partir de aqui o ensaio de Jerome McGann - The Rationale of HyperText, disponível no site do Institute for Advanced Technology in the Humanities da Virginia University: http://www.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html..

[6]Jerome McGann - Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave, 2001, p.56-7

Continua...

O espírito do natal futuro

sexta-feira, dezembro 23, 2005
"The Phantom slowly, gravely, silently approached. When it came, Scrooge bent down upon his knee; for in the very air through which this Spirit moved it seemedto scatter gloom and mystery.

It was shrouded in a deep black garment, which concealed its head, its face, its form, and left nothing of it visible save one outstretched hand. But for this it would have been difficult to detach its figure from the night, and separate it from the darkness by which it was surrounded.

He felt that it was tall and stately when it came beside him, and that its mysterious presence filled him with a solemn dread. He knew no more, for the Spirit neither spoke nor moved.

'I am in the presence of the Ghost of Christmas Yet To Come.' said Scrooge.

The Spirit answered not, but pointed onward with its hand.

'You are about to show me shadows of the things that have not happened, but will happen in the time before us,' Scrooge pursued. 'Is that so, Spirit.'

The upper portion of the garment was contracted for an instant in its folds, as if the Spirit had inclined its head. That was the only answer he received."

Charles Dickens, A Christmas Carol

Tempo futuro

O dia do «É a cultura, estúpido!» previsto com a exactidão possível, aqui.

E agora uma coisa ligeiramente diferente (2)


5. Nesta fase de transição, se existem oportunidades aliciantes para o sector do livro, não se pode contudo deixar de referir alguns pontos que constituem riscos potenciais para a edição ou para o leitor, certamente mais para este, e que nalguns casos tendem a romper um equilíbrio de poderes sabiamente sedimentado ao longo da história do livro entre os consumidores individuais e as casas editoras. Uma boa parte deles tem a ver com o facto de a publicações electrónicas exigirem uma mediação tecnológica que é basicamente estranha ao mundo do livro. Na verdade, em todos os suportes históricos da escrita o leitor pode aceder visualmente ao texto sem qualquer outro procedimento. Em contrapartida, a leitura em écrã é tributária de duas condições indispensáveis: a) Por um lado, é necessário um dispositivo técnico que permita transformar os dados ilegíveis registados na matéria memória num texto legível num écrã. b) Por outro, uma fonte de energia para alimentar esse dispositivo. Ou seja, sem energia e sem dispositivo técnico apropriado a escrita informática não existe ou, no máximo, pode ser considerada como invisível.

Diversos autores (e com particular ênfase Roger Chartier) têm manifestado alguma preocupação com o desaparecimento dos critérios antigos que permitiam distinguir, classificar e hierarquizar os discursos. Como no mundo digital todos os textos são dados a ler num mesmo suporte (o écrã de um computador) e nas mesmas formas, cria-se um continuum que já não diferencia os diversos géneros ou repertórios textuais, doravante semelhantes na sua aparência e equivalentes na sua autoridade. Esta situação ocasiona efeitos nada despiciendos sobre a propria noção de «livro» tal como ainda o entendemos, ou seja, como um objecto específico, diferente dos outros suportes de escrita e como unidades textuais dotados de uma identidade própria. Assim, perante a força homogeneizante do dispositivo de recepção é indispensável a capacidade de saber «qualificar» os textos enquanto produções culturais, sob pena de lidarmos com uma matéria informacional indistinta.

Por outro lado, se a Internet aparece como uma espécie de utopia realizada, essa maior liberdade conferida ao indivíduo, que nela pode difundir os textos que entender, tem como contrapartida uma grande precaridade institucional. A Internet escapa aos mecanismos e dispositivos tradicionais de institucionalização dos textos pois torna-se difícil garantir a autoridade, e mesmo a autenticidade, do que aparece na Web.

Por fim, verifica-se uma ligação evidente entre a crescente convergência de formas diversificadas, não só textuais, e a importância que o fragmento tem vindo a assumir em termos epistemológicos, sociais e da economia da edição. O que se deve, nos termos de Chartier, ao esboroar dessa ligação tradicional, estrita e absoluta, entre livro e obra. Da perspectiva da economia da edição, este novo modelo tem os seus aliciantes óbvios. Em termos empresariais é quase irresistível vender já não livros mas fragmentos. A ideia passa pelo facto de praticamente todos os editores terem direitos sobre muitos livros que, se desintegrados, contêm fragmentos que encontrarão um mercado à medida que se difundirem as práticas de distribuição digital e as capacidades de impressão a pedido. Verifica-se pois uma atomização crescente dos interesses em matéria de conteúdos e das publicações daí resultantes, o que se deve ao entrechocar de várias forças: o crescente interesse pela criação e distribuição conteúdo, a nível formal e informal; a disponibilização de tecnologias que permitem a edição a nível individual e social; uma progressiva mercantilização do conteúdo; e a aceitação cada vez mais fácil de informação oriunda de fontes «não fidedignas».



Continua...

E agora uma coisa ligeiramente diferente

quinta-feira, dezembro 22, 2005
Conforme o prometido, vamos publicando, à laia de folhetim, o contributo de José Afonso Furtado na última sessão sobre o futuro de Fernando Pessoa, a poesia e a literatura.

E agora para uma coisa ligeiramente diferente...

1. O mundo do livro está a mudar ao mesmo tempo que muda o mundo à nossa volta.
Nos anos mais recentes, temos assistido a uma progressiva digitalização dos produtos de uma cultura do analógico e do impresso; documentos antigos são lidos em suporte óptico e novos materiais muitas vezes já só existem como texto electrónico. Os editores publicam livros electrónicos enquanto a indústria informática desenvolve dispositivos portáteis para a sua leitura. Os compradores de livros fazem as suas aquisições através da Internet, as bibliotecas disponibilizam os seus utilizadores versões digitais dos seus fundos e alguns autores utilizam ferramentas hipertextuais na elaboração das suas obras. Desse modo, não só a produção, armazenamento e distribuição da informação se realiza cada vez mais em ambiente digital como assistimos a uma progressiva hegemonia dos écrãs como interface para a difusão de informação e como meio de comunicação.
Não se deve assim estranhar que termos noutros tempos tão bizarros ou mesmo desconhecidos como blogs, e-mail, e-books, Google, text messaging ou hipertexto, façam hoje em dia parte da nossa linguagem quotidiana.

2. As tecnologias digitais afectam a edição e os seus elementos – relação com o consumidor, natureza do produto e o modelo de negócio - de modos diferentes e a velocidades diferentes. Desde logo porque, como refere John B. Thompson, é necessário compreender que a indústria da edição é um domínio enormemente complexo e variado. Existem muitos tipos de edição, diferentes publicações e diferentes mercados, não tendo sentido tratá-los como um todo. Devemos, por isso, proceder a uma desagregação da noção genérica de «indústria da edição de livros». Thompson, na sequência de Pierre Bourdieu, introduz o conceito de «campo editorial»: o mundo da edição de livros pode ser conceptualizado como um conjunto de campos editoriais; cada um destes campos tem as suas características e dinâmicas próprias e a sua história, que difere em determinados aspectos das histórias dos outros campos. Se quisermos compreender o mundo da edição e o modo como se está a transformar, temos que nos concentrar nos diferentes campos e tentar reconstruir as propriedades e dinâmicas específicas de cada um deles. Em segundo lugar, porque os livros estão integrados em contextos sociais diversificados, ao mesmo tempo que a sua utilização está ligada a diferentes instituições e conjuntos de práticas sociais. Os livros não são meros objectos que possam ser subita e automaticamente substituídos por modos tecnologicamente mais eficientes de distribuição de conteúdo, pois estão ligados a formas de vida e a práticas sociais que mudam, quando mudam, lenta e gradualmente. E, por isso, para entendermos como se estão a alterar as relações entre as formas impressas e electrónicas de conteúdo, teremos de tomar atenção não apenas às inovações tecnológicas mas igualmente às formas de vida e às práticas sociais em que esses conteúdos estão embebidos e são utilizados.

3. Para se pensar o modo como a revolução digital pode actuar ao nível da distribuição de conteúdo, é essencial reflectir cuidadosamente sobre a interacção entre tecnologias, mercados e tipos de conteúdo. Ainda segundo Thompson , são essencialmente seis os aspectos em que as novas tecnologias podem acrescentar valor ao conteúdo: 1) facilidade de acessso; 2) possibilidade de actualização rápida, frequente e sem custos elevados; 3) escala, ou seja a capacidade de fornecer acesso a grandes quantidades de material: a economia da Internet é uma economia de escala, oferece a possibilidade de aceder a colecções de material que se caracterizam pela sua extensão e abrangência e uma gama de escolhas e de profundidade que não é compatível com colecções físicas; 4) capacidades de pesquisa no corpus e através de vários corpus; 5) intertextualidade; e, por fim 6) características multimedia.
À luz desta análise, verifica-se que existem certas formas de conteúdo que são mais adequadas ao ambiente digital, seja pelo seu conteúdo ser mais discreto, ter um carácter mais granular e integrar rapidamente as mais-valias funcionais características desse ambiente, seja pelos modos em que esse conteúdo é tipificadamente usado. Ao invés, há outras formas de conteúdo em que se verifica um incerteza efectiva sobre a sua adequação à distribuição e utilização online.

4. Neste mesmo momento, tanto o livro electrónico como a edição digital recorrem em simultâneo a, pelo menos, três estratégias diferentes: em primeiro lugar, a migração de conteúdos. Em termos de avaliação da situação do mercado, é forçoso reconhecer que o que tem predominado é uma translação bastante literal dos livros impressos para uma representação digital, ou seja, são «versões electrónicas», como lhes chama Geoffrey Nunberg . Tratam-se de representações derivadas ou secundárias de livros impressos e publicados ou de textos pensados primariamente para publicação impressa, e que interpretamos ainda no âmbito do paradigma do livro tradicional da cultura tipográfica. O que significa a adopção de um conceito de livro electrónico mais restrito, mais próximo do modelo conceptual do livro impresso, em que a oferta de leitura é maioritariamente textual e que pretende inscrever-se num contrato de «legibilidade visual através das soluções tipográficas adoptadas que mantêm a semelhança dos elementos do peritexto.» São formas textuais que, em transformação é certo, se inserem numa continuidade, isto é, que assentam na ideia de que o conjunto de práticas e de modelos teóricos que constituem a herança de cinco séculos de «cultura do livro» não pode ser esquecida ou abandonada mas pode e deve antes prosseguir a sua própria evolução – seguramente sob formas em parte novas e inesperadas – mesmo na era dos media digitais. Nessa perspectiva, só entendendo as continuidades que unem o texto electrónico aos que o precederam, será possível compreender os seus traços específicos pois, estruturalmente, o texto de rede prolonga as diversas dimensões do texto ligado ao suporte papel, a partir das quais opera diversas transformações. Em segundo lugar, o desenvolvimento de conteúdo digital directamente online, isto é, a publicação de textos electrónicos concebidos para se moverem em suportes electrónicos desde o seu início, que exploram as capacidades específicas do universo digital, ligados à vulgarização de ambientes hipertextuais e que põem em causa algumas das noções tradicionalmente atribuíveis aos textos da cultura do impresso; esta posição tem sido designada como heterogeneidade radical do livro impresso e dos media digitais , e passa desde logo pela rejeição do livro tradicional como metáfora adequada para o design do livro electrónico, pois leva a emulações (erróneas) do antigo medium. Deste ponto de vista, estaríamos a assisitir a uma rotura fundamental entre o texto e o seu suporte e a uma passagem inevitável do livro-objecto para o livro-biblioteca, para o livro interactivo, para o livro em rede, para o livro multimedia, para o hipertexto enfim. Por último, serviços de agregação, que são serviços Web baseados na criação e desenvolvimento de bancos de dados de texto integral contendo livros e documentos em formato electrónico e que disponibilizam títulos digitalizados com base em parcerias com editores com forte posição no mercado do livro impresso. Estes agregadores orientam o seus negócio em geral para bibliotecas e para instituições académicas, científicas e profissionais, utilizando modelos de negócio que vão desde a tradicional forma de subscrição até à emergência de modelos transacionais em que o consumidor paga não pela propriedade de um produto mas pela sua utilização.


Continua...

Primeiras confirmações

quarta-feira, dezembro 21, 2005
Na próxima sessão do «É a Cultura, Estúpido!», sobre o futuro do futuro, está já confirmada a presença de dois convidados:

- Nuno Crato, matemático e divulgador de ciência (no jornal Expresso)
- João Barreiros, escritor de Ficção Científica

O moderador da conversa será Pedro Mexia, cabendo a José Mário Silva o papel de "agente provocador". Ambos farão ainda um sucinto balanço cultural do ano de 2005.

Adivinhação

terça-feira, dezembro 20, 2005
«Os antigos selvagens, afirma Montaigne, tinham sacerdotes adivinhos que lhes vaticinavam o futuro. Como a adivinhação era considerada um dom dos deuses, era indesculpável que o oráculo nao se cumprisse e se os factos desmentiam o profeta, a tribo cortava-o em pedaços. Com menos fé religiosa do que o amor à vida, os sacerdotes aprenderam pouco a pouco a proteger-se. Chegar ao actual equilíbrio entre diafanidade semântica e polissemia em que são tão destros os nossos actuais gurus custou muito sangue ao longo da história.»

Um microconto de Raúl Brasca publicado no número 11 da Revista Periférica (a publicação de Vilarelho que anunciou o seu fim para um futuro próximo, Janeiro de 2006)

O futuro em 1968

segunda-feira, dezembro 19, 2005











Fotograma de 2001, A Space Odyssey, de Stanley Kubrick (1968)

O futuro em 1992

sexta-feira, dezembro 16, 2005
The Future

«Give me back my broken night
my mirrored room, my secret life
it's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control
over every living soul
And lie beside me, baby,
that's an order!
Give me crack and anal sex
Take the only tree that's left
and stuff it up the hole
in your culture
Give me back the Berlin wall
give me Stalin and St Paul
I've seen the future, brother:
it is murder.

Things are going to slide, slide in all directions
Won't be nothing
Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world
has crossed the threshold
and it has overturned
the order of the soul
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant

You don't know me from the wind
you never will, you never did
I'm the little jew
who wrote the Bible
I've seen the nations rise and fall
I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told
to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going
any further
And now the wheels of heaven stop
you feel the devil's riding crop
Get ready for the future:
it is murder

Things are going to slide ...

There'll be the breaking of the ancient
western code
Your private life will suddenly explode
There'll be phantoms
There'll be fires on the road
and the white man dancing
You'll see a woman
hanging upside down
her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets
coming round
tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'

Give me back the Berlin wall
Give me Stalin and St Paul
Give me Christ
or give me Hiroshima
Destroy another fetus now
We don't like children anyhow
I've seen the future, baby:
it is murder

Things are going to slide ...

When they said REPENT REPENT ...»

Leonard Cohen, 1992

O futuro em 1991

quinta-feira, dezembro 15, 2005
Ciência, tecnologia e feminismo, no Cyborg Manifesto, de Donna Haraway (1991).

«Contemporary science fiction is full of cyborgs - creatures simultaneously animal and machine, who populate worlds ambiguously natural and crafted. (...) The cyborg is a creature in a post-gender world; it has no truck with bisexuality, pre-oedipal symbiosis, unalienated labour, or other seductions to organic wholeness through a final appropriation of all the powers of the parts into a higher unity.»

O futuro em 2004

quarta-feira, dezembro 14, 2005















2046, um filme de Wong Kar Wai

O futuro em 1996

terça-feira, dezembro 13, 2005
«A sala é circular, em forma de meia-lua, decorada num estilo anti-sibarita e neo-pulp, característico das astronaves imaginadas nos anos cinquenta. Ao contrário dos outros compartimentos, aqui ninguém respeita a necessidade física de conforto. É uma zona toda ela feita por bonecos, destinada a sentar bonecos. Cadeiras de espaldar de ferro arrumam-se junto de mesinhas de pernas esguias e tampos vítreos. No chão não se vêem carpetes, alcatifas ou tapetes. Apenas ladrilhos geométricos em arranjos infinitos. Das paredes pendem quadrantes onde pisca uma quantidade inútil de luzeiros. E no fundo da sala, claro, lá está o inevitável painel energético que liga o mundo de ar às profundidades marinhas do ecossistema zotifix. Vindos dessa bolha aquática, centenas de filamentos viscosos e brilhantes como arames cobertos de pez, ornados de minúsculos grampos e ventosas, aderem à forma sorridente de um boneco de borracha sentado à secretária.»

In Terrarium, um romance em mosaicos de João Barreiros e Luís Filipe Silva, publicado pela Caminho, em 1996.

Prospectiva

segunda-feira, dezembro 12, 2005
«(...)Modernamente, chamamos à tentativa de prever o futuro "prospectiva". Mas em que é que consiste essa disciplina?
João Caraça - A propectiva é uma maneira de olhar para o futuro, um estudo do futuro. A propectiva pode ser definida como um conjunto de reflexões sobre situações que podem acontecer no futuro. Simplesmente, essa maneira de definir a prospectiva tem de ser vista do ponto de vista cognitivo, como uma disciplina, um saber, um conjunto de conhecimentos e atitudes que surgem numa dada altura com uma certa função. Penso que a prospectiva é antes de mais uma maneira extraordinariamente rica de iluminar o presente. A prospectiva serve para percebermos o presente, porque não podemos saber como é que o futuro vai acontecer.»


Entrevista publicada em «Portugal 2020», de Adelino Gomes, José Vítor Malheiros e Teresa de Sousa, Fenda, 1998.

A persistência da memória

domingo, dezembro 11, 2005

Salvador Dali

O futuro em 1948

sábado, dezembro 10, 2005
«— A Décima Primeira Edição vai ser a edição definitiva — disse. Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-las de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto. A Décima Primeira Edição não há-de conter uma única palavra susceptível de se tornar obsoleta antes do ano 2050.»

George Orwell, Mil novecentos e oitenta e quatro (trad. Ana Luísa Faria, Antígona)

Próxima sessão

sexta-feira, dezembro 09, 2005
A ideia não é adivinhar o futuro, a ideia é pensar como vamos passar a vê-lo.

Relato da última sessão

sexta-feira, dezembro 02, 2005
FERNANDO PESSOA, SIMPLES E COMPLEXO

Comecemos assim mesmo, in media res, a meio da coisa, quando o Pedro Mexia, que estava ali para provocar o debate que o José Mário Silva moderava, diz que Pessoa é para si o segundo melhor poeta português do século XX. Costuma dizer isto para lhe perguntarem quem é que fica então em primeiro, ao que ele responde “Vitorino Nemésio”. O diálogo fecha-se muitas vezes com um “esse também escreve poemas?” e perguntas do género. A questão que o agente provocador dirige a Richard Zenith, pessoano como outros dois dos convidados ao seu lado (Fernando Cabral Martins e Manuela Parreira da Silva), é precisamente se «não acha que Pessoa pôs na sombra poetas difíceis como é o caso de Nemésio?». Mexia aponta ainda o paradoxo de uma crítica que transforma Fernando Pessoa de difícil em impenetrável e questiona sobre o que é isso de ser um «poeta muito cerebral».

Para Richard Zenith, um grande escritor é simples e complexo, permite leituras em vários níveis. Pessoa é um poeta que os adolescentes lêem com facilidade, por exemplo, e Alberto Caeiro, que também se lê muito bem, é precisamente o mais filosófico dos heterónimos. Segundo o estudioso americano, Pessoa é sem dúvida um poeta cerebral – o verso «o que em mim está pensando» di-lo com clareza, mas há qualquer coisa para além disso quando escreve, muitas vezes também, sobre «pensar as emoções» e «sentir os pensamentos». Pode ser que Pessoa tenha feito alguma sombra a outros do seu tempo e aos que chegaram depois: quando há poetas que conquistam o público, isso desperta interesse e Fernando Pessoa acabou por ser o comboio de exportação da poesia portuguesa.

Há uma geração ensombrada por Álvaro de Campos, outra por Alberto Caeiro, considera Fernando Cabral Martins. É possível encontrar um Pessoa nacionalista, um pessoa cosmopolita e ambos em simultâneo. Fernando Pessoa é o poeta da multiplicidade, a ideia de Nietzsche de que a Verdade não existe foi assumida por ele de uma forma brutal, numa cornucópia da abundância. É precisamente pela sua variedade que escapa à canonização. Há no Pessoa um grau de produtividade que torna difícil fixar uma imagem que possa ser comercializada, apesar do merchandising.


Manuela Parreira da Silva assume uma posição diferente de Pedro Mexia quando considera os heterónimos como parte da biografia de Pessoa – Mexia, por seu lado, questiona o interesse de aproximar a heteronomia do caso mental de Fernando Pessoa. Para a organizadora do recente «Realidade e Ficção - para uma biografia epistolar de Fernando Pessoa», obra e vida cruzam-se e os heterónimos atravessam ambas: o Álvaro de Campos intervém nas cartas de amor a Ophélia, e Ophélia faz o jogo de Pessoa, dizendo-lhe «venha ter comigo mas, por favor, não traga o Álvaro de Campos». É também a publicação de cartas e outros textos que não chegam a ter valor literário que Pedro Mexia põe em causa: até que ponto vale a pena publicar estes textos que acabam por ser prejudiciais para a imagem de um autor? Em resposta, Manuela Parreira da Silva refere os dois volumes no prelo, com a poesia de Fernando Pessoa ortónimo, em que a equipa organizadora incluiu alguns poemas da juvenília, alguns não tão bons como outros escritos mais tarde, mas que permitem ter uma ideia da evolução cronológica do autor.

DOMÍNIO PÚBLICO E AGORA?

«I know not what tomorrow will bring»: foi assim, como se prometia aqui no blog, que José Mário Silva iniciou o debate do É a cultura, estúpido!, depois de duas horas de maratona de poemas lidos em voz alta, a muitas vozes, no Jardim de Inverno do São Luiz. Em 1986, a obra de Fernando Pessoa caiu pela primeira vez no domínio público, vigorava então a Lei Portuguesa que determinava que era necessário que passassem cinquenta anos sobre a morte de um autor para a livre publicação do que escreveu. Nessa altura deu-se uma explosão pessoana, também motivada pelo centenário do nascimento, comemorado em 1988. Agora, 70 anos depois da sua morte, a obra de Fernando Pessoa regressa ao domínio público, depois de um período em que os direitos de publicação voltaram a ser reservados, desta feita pela editora Assírio e Alvim. Tudo isto porque a lei europeia, que Portugal teve que adaptar, adiava em 20 anos a livre utilização da obra de um autor por toda a gente. Ora, cumpridos os anos devidos, regressando ao domínio público, será que o boom pessoano se vai repetir?

«Há muitas maneiras de editar Pessoa, não há uma certa, há várias possíveis», pensa Richard Zenith. E explica: à excepção da Mensagem, que publicou em vida, e do plano deixado por Alberto Caeiro, quanto ao resto as ideias encontradas são contraditórias. O importante é que no que se publica haja transparência, organização, e que fiquem bem claros os princípios que presidem a uma determinada edição. E não dizer «é isto que Pessoa queria, assim, desta forma». As edições da Assírio têm essa transparência e um dos pontos fortes dos livros é a fixação do texto. Essa espécie de monopólio tem o seu lado negativo: como americano, Zenith acredita que a concorrência é que é saudável, mas no saldo final, tratou-se de um período bem aproveitado.

Segundo Manuela Parreira da Silva, ainda vai haver, durante muito tempo, trabalho para quem quiser trabalhar. Está por publicar muito texto em prosa e mesmo na poesia tem havido algumas surpresas. Por exemplo, encontraram recentemente num papel de embrulho escrito com um lápis grosso, vermelho, tipo lápis de merceeiro, um poema dedicado a Artur Rimbaud, à maneira do poema de Álvaro de Campos a Walt Whitman. Foi uma descoberta inesperada, mas falta ainda decifrar uma palavra. Por vezes, opta-se por publicar textos incompletos, mas é preciso que tenham uma coerência interna. Neste ponto pode haver divergência no momento da publicação: um editor pode achar que esse texto incompleto é pertinente, outro pode achar que não.

Fernando Cabral Martins acha que o boom se pode repetir. Relembra também que Fernando Pessoa é o caso mais visível da alteração da lei, embora não seja caso único. E teve uma função bastante positiva: dar a perceber que o boom de edições, que em si mesmo é bom, conduziu a uma proliferação de edições pouco cuidadas e oportunistas. A obra de Pessoa correu o risco de implosão, numa altura em que tudo, todas as publicações eram possíveis. E logo a obra de Pessoa, uma obra especial e particular, porque fragmentária.
Para este pessoano que também estuda a edição num sentido lato, as edições de Pessoa vão envelhecer. Cada edição tem a ver com um público, com um tempo: «as edições da Ática foram feitas para uma geração de leitores diferente da que existe hoje». Daqui a trinta anos haverá uma nova geração de textos de Pessoa. Sobre isso, são muitas as dúvidas; a única coisa de que está absolutamente certo é da genialidade de Pessoa.


Sobre o futuro das edições, que livros e que leitores vamos ter, José Afonso Furtado apresentou uma pequena comunicação que disponibilizaremos brevemente aqui no blogue do É a cultura, estúpido!
Do que foi dito no Jardim de Inverno, adivinha-se que a obra de Fernando Pessoa ainda vai dar muito que ler. Por um lado, porque da arca sem fundo vão aparecendo sempre novos textos e dos antigos se vão fazendo sempre novas leituras, novos livros, novos públicos. Por outro lado, porque isto do futuro da edição parece passar pelo on-line, que se adequa especialmente bem a textos fragmentários e, por isso, pode servir como uma luva ao caleidoscópico Fernando Pessoa.

[Margarida Ferra]

Um reflexo do que aconteceu ontem, no Jardim de Inverno

quinta-feira, dezembro 01, 2005