<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener('load', function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <div id="navbar-iframe-container"></div> <script type="text/javascript" src="https://apis.google.com/js/plusone.js"></script> <script type="text/javascript"> gapi.load("gapi.iframes:gapi.iframes.style.bubble", function() { if (gapi.iframes && gapi.iframes.getContext) { gapi.iframes.getContext().openChild({ url: 'https://www.blogger.com/navbar.g?targetBlogID\x3d17995268\x26blogName\x3d%C3%89+a+cultura,+est%C3%BApido!\x26publishMode\x3dPUBLISH_MODE_BLOGSPOT\x26navbarType\x3dBLUE\x26layoutType\x3dCLASSIC\x26searchRoot\x3dhttp://cultura-estupido.blogspot.com/search\x26blogLocale\x3dpt_PT\x26v\x3d2\x26homepageUrl\x3dhttp://cultura-estupido.blogspot.com/\x26vt\x3d-8193206143390702217', where: document.getElementById("navbar-iframe-container"), id: "navbar-iframe" }); } }); </script>

É a cultura, estúpido!

Na última quarta-feira do mês, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Mote

quarta-feira, novembro 30, 2005
Se quisermos um mote para a sessão de logo à tarde, ele está justamente na última frase escrita por Fernando Pessoa, em inglês: «I know not what tomorrow will bring».

Fragmento 404

Enrolar o mundo à roda dos nossos dedos, como um fio ou uma fita com que brinque uma mulher que sonha à janela.

Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.

Seria interessante poder ser dois reis ao mesmo tempo: ser não a uma alma de eles dois, mas as duas almas.


Bernardo Soares, Livro do Desassosego, edição de Richard Zenith, Assírio e Alvim, 1998

O futuro da obra de Fernando Pessoa, da poesia, da literatura

terça-feira, novembro 29, 2005
É já amanhã a próxima sessão do É a cultura, estúpido! Até lá, recebemos no nosso e-mail considerações futuristas, dúvidas pertinentes, contributos para o debate: eacultura@yahoo.com

Pessoas dizem Pessoa

segunda-feira, novembro 28, 2005
Quarta-feira, contam-se 70 anos sobre a morte de Fernando Pessoa e a sua obra cai no domínio público. Para assinalar esse acontecimento, o São Luiz Teatro Municipal e a Casa Fernando Pessoa desafiam actores, autores, artistas, personalidades para virem ao Jardim de Inverno no dia 30 entre as 16h00 e as 18h30 para lerem um poema, à sua escolha, de Fernando Pessoa. A sessão é aberta ao público.
Entre muitos outros, lerão poemas de Pessoa, Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Graça Lobo, Nuno Lopes, Sérgio Godinho, Inês Pedrosa, Virgílio Castelo, Pedro Lomba, Rogério Vieira, Sofia Grillo, Manuel Marques, Carlos Martins, Jorge Vaz de Carvalho, Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Artur Silva, Sílvia Pfeifer, Custódia Gallego...
Para encerrar as comemorações do dia, e os 12 anos da Casa Fernando Pessoa será apresentado o espectáculo Wordsong/Pessoa, pelas 21h00 na Casa Fernando Pessoa.

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feli e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida-

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que hoje sou é como a humidade no corredor no fim da casa,
Pondo grelado nas paredes..
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, ´
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais
copos
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo
do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

sexta-feira, novembro 25, 2005

Fragmento 118

quinta-feira, novembro 24, 2005
Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com violenta pena e louca como seria de supor, pois que em tudo isso ia toda a minha vida. Não é outra, pois, que a mãe, morto o filho, meses depois estar aí e é a mesma. A grande terra que serve os mortos serviria, menos maternalmente, esses papéis. Tudo não importa e creio bem que houve quem visse a vida sem uma grande paciência para essa criança acordada e com grande desejo do sossego de quando ela, enfim, se tenho ido deitar.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, edição de Richard Zenith, Assírio e Alvim, 1998.

Fernando Pessoa na blogosfera

quarta-feira, novembro 23, 2005
Aqui.

A rosa no verso



Antes de chegar o euro, o poeta valia 100 escudos.

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia

terça-feira, novembro 22, 2005
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


Alberto Caeiro

Profissão:

segunda-feira, novembro 21, 2005
A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

«Nota Biográfica» in Escritos Autobiográficos, Automáticos, e Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, 2003

Estado:

Solteiro.

«Nota Biográfica» in Escritos Autobiográficos, Automáticos, e Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, 2003

Filiação:

Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto, e que foi director-geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e judeus.

«Nota Biográfica» in Escritos Autobiográficos, Automáticos, e Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, 2003

Idade e naturalidade:

Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio nº. 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

«Nota Biográfica», in Escritos Autobiográficos, Automáticos, e Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, 2003

Nome completo:

Fernando António Nogueira Pessoa.

«Nota Biográfica» in Escritos Autobiográficos, Automáticos, e Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, colaboração de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim, 2003

Domínio público

sexta-feira, novembro 18, 2005








Estátua de Fernando Pessoa, no Parque dos Poetas, em Oeiras.










(fotografia: Ana Rute Cavaco)

(E depois)

quinta-feira, novembro 17, 2005
(e depois, como numa adivinha, a pátria é a infância e a ilha longínqua e deserta é a idade em que todos nos encontramos).

Nuno Artur Silva, As Passagens do Tempo, Cotovia, 2000

O marinheiro

Na peça "O Marinheiro", de Fernando Pessoa, uma veladora conta a história de um sonho que teve com um marinheiro que tinha naufragado e ido dar a uma ilha longínqua e deserta.
"... Como elle não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava d'ella soffria, poz-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido". Minuciosamente, durante anos e anos, sonhou essa pátria de sonho: os sítios, as pessoas, as suas vidas e as suas histórias, tudo.
Um dia quis recordar a sua pátria verdadeira mas viu que não se lembrava de nada. A única pátria de que se lembrava era a pátria que tinha sonhado.
No relato da veladora, um dia, um barco passou pela ilha e não estava lá o marinheiro. Depois o sonho desvanece-se e a veladora e Pessoa não nos dizem para onde foi e o que aconteceu ao marinheiro.
Eu sempre imaginei outro final para a história: querendo recordar a sua pátria verdadeira, o marinheiro sonhou que, um dia, partia da sua pátria de sonho, se tornava marinheiro e acabava por naufragar e ir parar a uma ilha longínqua e deserta. E "...Como elle não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava d'ella soffria, poz-se a sonhar uma (outra) pátria que nunca tivesse tido".
Esta história como a outra é infinita.


Nuno Artur Silva, As Passagens do Tempo, Cotovia, 2000

A três quartos

quarta-feira, novembro 16, 2005

Polémica entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos quanto à classificação das artes

Ricardo Reis: Há só duas artes verdadeiras: a Poesia e a Escultura. A Realidade divide-se em realidade espacial e realidade não espacial, ou ideal. A escultura figura a realidade espacial (que a pintura desfigura e abaixa e a arquitectura artificializa porque não reproduz uma coisa real mas outra coisa). A música, que é a arquitectura da poesia, isola uma coisa, o som, e quer dar o ritmo fora do humano, que é a ideia.

Álvaro de Campos: Há cinco artes - a Literatura, a Engenharia, a Política, a Figuração (que inclui o drama, a dança etc.) e a Decoração. (A Decoração vai desde a arte de arrumar bem as coisas em cima de uma mesa até à pintura e à escultura. Fernando Pessoa teve razão numa coisa: a pintura e a escultura são essencialmente artes de decorar, mas errou em limitar a essas as artes decorativas).


in Prosa, organização de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim (Outubro de 2003)

Quatro aforismos de F. P.

terça-feira, novembro 15, 2005
A filosofia é a lucidez intelectual chegando à loucura.

***

Primeiro sê livre; depois pede a liberdade.

***

Neste deserto de areia literária não há o oásis de uma explicação.

***

A gramática é mais perfeita que a vida. A ortografia é mais importante que a política. A pontuação dispensa a humanidade.

Retrato do artista enquanto jovem


Fernando Pessoa em 1908, aos 20 anos

Um poema, segundo Ricardo Reis

Um poema é a projecção de uma ideia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-somente o meio de que a ideia se serve para se reduzir a palavras.

Sujeito poético

Fernando Pessoa num post recente da blogosfera portuguesa.

Adenda

segunda-feira, novembro 14, 2005
À lista dos convidados para a próxima sessão do «É a Cultura, Estúpido!», acrescentar um nome:

- Fernando Cabral Martins: prof. universitário, ensaísta, pessoano e um dos responsáveis pela pós-graduação em Edição de Texto da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Alberto Caeiro em posição deitada

domingo, novembro 13, 2005

Pormenor do painel criado por Almada Negreiros na fachada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1957)

Ricardo Reis sobre Alberto Caeiro

Alberto Caeiro é, cremos, o maior poeta do século vinte, porque é o mais completo subversor de todas as sensibilidades diversamente conhecidas, e de todas as fórmulas intelectuais variamente aceites. Viveu e passou obscuro e desconhecido. É esse (dizem os ocultistas) o distintivo dos Mestres.

Ricardo Reis em «Notas para um prefácio a Alberto Caeiro», in Prosa, organização de Manuela Parreira da Silva, Assírio e Alvim (Outubro de 2003)

Ilimitada e periódica

sábado, novembro 12, 2005
Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever
infinita. Não intercalei este adjectivo por um hábito retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Quem o julga limitado, postula que em lugares longíquos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar - o que é absurdo. Quem o imagina sem limites, esquece que os tem o número possível de livros. Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direcção, verificaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). A minha solidão alegra-se com esta elegante esperança.

De «A Bibliteca de Babel», in Ficções, Jorge Luis Borges, traduzido por José Colaço Barreiros para a Teorema (1998)

Arca

sexta-feira, novembro 11, 2005

Lugar mítico e aparentemente infinito: a arca de Pessoa. Ou será que é um baú?

Press-release

quinta-feira, novembro 10, 2005
No próximo dia 30 de Novembro (quarta-feira), pelas 18h30, o «É a Cultura, Estúpido!» vai “ressuscitar” Fernando Pessoa no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, precisamente no dia em que passam 70 anos sobre a morte do mais importante poeta português do século XX. Em discussão estará não apenas o futuro das edições de Pessoa (agora que caíram no domínio público e deixaram de estar abrangidas pela lei dos direitos autorais), mas também a forma como o legado pessoano será recebido pelas próximas gerações. Abordaremos ainda o futuro da própria ideia de literatura e o lugar que esta poderá ocupar na cada vez mais vasta panóplia da oferta cultural. Numa sessão moderada por José Mário Silva, com Pedro Mexia no papel de “agente provocador”, contaremos com o apoio da Casa Fernando Pessoa e com a presença de José Afonso Furtado (director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, além de especialista em questões da Edição no mundo digital e novos suportes para o livro), Richard Zenith (tradutor, investigador e editor de Fernando Pessoa) e Manuela Parreira da Silva (professora da Universidade Nova de Lisboa e elemento da equipa que tem estudado e editado o espólio pessoano).

Convidados da próxima sessão

Já confirmados:

- José Afonso Furtado
- Richard Zenith
- Manuela Parreira da Silva

O moderador da sessão será José Mário Silva, com Pedro Mexia a desempenhar a função de "agente provocador".

Graffiti

quarta-feira, novembro 09, 2005

(Foto arje.net)

Can poetry matter?

terça-feira, novembro 08, 2005
«It is time to experiment, time to leave the well ordered but stuffy classroom, time to restore a vulgar vitality to poetry and unleash the energy now trapped in the subculture. There is nothing to lose. Society has already told us that poetry is dead. Let's build a funeral pyre out of desiccated conventions piled around us and watch the ancient, spanglefeathered, unkillable phoenix rise from ashes.»

In «Can poetry matter? - essays on poetry and american culture», edited by Dana Gioia, Graywolf Press, 1992

Linque

segunda-feira, novembro 07, 2005
Versos gratuitos para todos.

Diana através dos ramos

domingo, novembro 06, 2005
Diana através dos ramos
Espreita a vinda de Endimion
Endimion que nunca vem,
Endimion, Endimion,
Lá longe na floresta...

E a sua voz chamando
Através dos ramos
Endimion, Endimion...

Assim choram os deuses...


Ricardo Reis

Caricatura

sábado, novembro 05, 2005

Fernando Pessoa por Biratan

Chove muito, chove excessivamente...

Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.

Num dia do meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah, nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...


Álvaro de Campos

Leve, leve, muito leve

sexta-feira, novembro 04, 2005
Leve, leve, muito leve
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.


Alberto Caeiro

Pessoa naïf


«A Mensagem», de Luiza Caetano

Quando, Lídia, vier o nosso outono

quinta-feira, novembro 03, 2005
Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Privamera que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa -
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.


Ricardo Reis

Para que serve a literatura?

quarta-feira, novembro 02, 2005
«As obras literárias convidam-nos à liberdade de interpretação porque nos propõem um discurso a partir dos inúmeros planos de leitura e nos colocam perante as ambiguidades da linguagem e da vida. (...)
[Mas] em relação ao mundo dos livros, proposições como Sherlock Holmes era solteiro, a Capuchinho Vermelho foi devorada pelo lobo mas depois libertou-a o caçadoe, Anna Karenina mata-se, permanecerão eternamente verdadeiras e nunca poderão ser refutadas por ninguém. Há pessoas que negam que Jesus fosse filho de Deus, outras que inclusivamente põem em causa a sua existência histórica, outras que afirmam que é o Caminho, a Verdade e a Vida, outras ainda que consideram que o Messias ainda está para vir e nós, seja como for que pensemos, tratamos com respeito estas opiniões. Mas ninguém tratará com respeito quem afirmar que Hamlet se casou com Ofélia ou que o Super-homem não é Clark Kent.(...)
O mundo da literatura é de molde a inspirar-nos a confiança de que há algumas proposições que não podem ser postas em dúvida, e oferece-nos, por isso um modelo, imaginário até onde quisermos, de verdade. (...)
A função dos contos "inalteráveis" é justamente esta: contra todos os nossos desejos de mudar os destino, dão-nos palpavelmente a impossibilidade de o alterar. E assim fazendo, seja qual for a história que contem, também contam a nossa e por isso os lemos e amamamos. Temos necessidade da sua lição "repressiva". A narrativa hipertextual pode educar-nos para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo. Os contos "já feitos" ensinam-nos também a morrer.
Creio que esta educação para o Fado e para a morte será uma das principais funções da literatura.»


De «Sobre algumas funções da literatura», in Sobre Literatura, de Umberto Eco, traduzido para Difel por José Colaço Barreiros (2003)

Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Não tenho sinceridade nenhuma para te dar.

Não tenho sinceridade nenhuma para te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.


Álvaro de Campos

Raciocínio dedutivo e um bocadinho tortuoso

terça-feira, novembro 01, 2005
Se o Grande Terramoto de 1755 não tivesse acontecido, a cidade de Lisboa não teria sido parcialmente arrasada. Se a cidade de Lisboa não tivesse sido parcialmente arrasada, a reconstrução da Baixa não teria sido o que foi, quando foi e como foi. Se a reconstrução da Baixa não tivesse sido o que foi, quando foi e como foi, não haveria uma Rua dos Douradores como a que existia na primeira metade do século XX. Se não houvesse uma Rua dos Douradores como a que existia na primeira metade do século XX, nela não viveria e trabalharia, num ensimesmamento genial, um ajudante de guarda-livros chamado Bernardo Soares. Se nela não vivesse e trabalhasse, num ensimesmamento genial, um ajudante de guarda-livros chamado Bernardo Soares, não teria chegado até nós, através do processo virtual da heteronimia pessoana, o fabuloso Livro do Desassossego.
Julgo que hoje devíamos estar agradecidos aos fenómenos tectónicos que produziram o Grande Terramoto de 1755 e, por ínvios caminhos, o pequeno terramoto literário de Bernardo Soares.

[José Mário Silva]

Fragmento 116

«Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.»


Bernardo Soares, Livro do Desassossego (edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2001)