Ruído de fundo
«Gostaria de ver discutidas, numa perspectiva sociológica (passe o pretensiosismo), as mudanças estruturais verificadas no nosso país pelo aparecimento da televisão.
Em formato de memórias, posso acrescentar: quando era pequena (5, 6, 7 anos), aos domingos, durante o almoço, escutava-se na Emissora Nacional o "Domingo Sonoro". Mais tarde, durante as frequentes recidivas de febre reumática que me retinham na cama, deram-me um rádio de cabeceira. Aí escutava "o Zéquinha e a Lélé" ou "Poliana, a história de uma doentinha" (!). Assustei-me, como todos, com a transmissão da "guerra dos mundos".
Poucos anos mais tarde, a televisão chegou lá a casa, no Natal! Na sala colocámos cadeiras em formação de plateia. Só depois do jantar é que nos posicionávamos — víamos os fados, os concursos e os festivais. Era a família presente-ausente, só a ver, sem comentar. Tratava-se de uma televisão a preto e branco, com conteúdos cinzentos como o governo. Foi a televisão que informou sobre a guerra de África e a tomada da Índia — tinha lá um irmão... foi um desespero!
Em plena adolescência e até ao 25 de Abril, deixei de ver televisão.
Hoje, quando faço "zapping" através do tele-lixo, sinto uma insatisfação total e volto-me para outra caixa, mais luminosa, mais sedutora, mais à medida do meu desejo de conhecer, comunicar, aprender. Sempre que preciso de recomeçar — retroceder para refrescar, repescar informação ou observar melhor, volto atrás. Impossível fazê-lo na televisão tal como agora a temos — serviço básico de TV cabo.
Agora, a caixa que tanto nos maravilhou serve de ruído de fundo na chegada a casa. Depois, pela noite dentro, é destronada pelo CD. Muitas vezes, o "biography channel" serve de tranquilizante. Nada melhor do que a "Saga dos Romanoff" para dormir no emaranhado de famílias reais destituídas de poder, cheias de brilho decadente, numa sociedade chamada de globalizada, onde a desigualdade é cada vez mais desigual.»
(Teresa de Campos Moraes, 57 anos)
Em formato de memórias, posso acrescentar: quando era pequena (5, 6, 7 anos), aos domingos, durante o almoço, escutava-se na Emissora Nacional o "Domingo Sonoro". Mais tarde, durante as frequentes recidivas de febre reumática que me retinham na cama, deram-me um rádio de cabeceira. Aí escutava "o Zéquinha e a Lélé" ou "Poliana, a história de uma doentinha" (!). Assustei-me, como todos, com a transmissão da "guerra dos mundos".
Poucos anos mais tarde, a televisão chegou lá a casa, no Natal! Na sala colocámos cadeiras em formação de plateia. Só depois do jantar é que nos posicionávamos — víamos os fados, os concursos e os festivais. Era a família presente-ausente, só a ver, sem comentar. Tratava-se de uma televisão a preto e branco, com conteúdos cinzentos como o governo. Foi a televisão que informou sobre a guerra de África e a tomada da Índia — tinha lá um irmão... foi um desespero!
Em plena adolescência e até ao 25 de Abril, deixei de ver televisão.
Hoje, quando faço "zapping" através do tele-lixo, sinto uma insatisfação total e volto-me para outra caixa, mais luminosa, mais sedutora, mais à medida do meu desejo de conhecer, comunicar, aprender. Sempre que preciso de recomeçar — retroceder para refrescar, repescar informação ou observar melhor, volto atrás. Impossível fazê-lo na televisão tal como agora a temos — serviço básico de TV cabo.
Agora, a caixa que tanto nos maravilhou serve de ruído de fundo na chegada a casa. Depois, pela noite dentro, é destronada pelo CD. Muitas vezes, o "biography channel" serve de tranquilizante. Nada melhor do que a "Saga dos Romanoff" para dormir no emaranhado de famílias reais destituídas de poder, cheias de brilho decadente, numa sociedade chamada de globalizada, onde a desigualdade é cada vez mais desigual.»
(Teresa de Campos Moraes, 57 anos)
10:40 da tardeA minha pergunta não tem a ver com o seu comentário, que, contudo, perfilho enteiramente... Chama-se Teresa Sónia?
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