Ecos da última sessão - João Lopes
«Algo mudou e muito na televisão dos últimos anos. O problema político de há treze anos é o mesmo de hoje: até que ponto a RTP se consegue afirmar como alternativa aos canais privados. A realidade é que tem havido mimetismo em relação ao modelo ditado pelas televisões privadas e a missão da televisão pública é criar outros modelos, independentes das pressões do mercado. Eu pertenço a uma geração que viveu a adolescência com uma relação muito diferente com as imagens: o cinema, por exemplo, tinha uma componente de sagrado (quando se via um filme, não se sabia quando se poderia voltar a vê-lo). A relação com o universo das imagens mudou. Há uma proliferação das imagens, mas será que com mais imagens sabemos mais sobre o mundo?
A primeira frase de The End of Violence (Wim Wenders, 1997) é "define violence". É preciso definir televisão generalista, é preciso saber do que falamos quando falamos de televisões generalistas. Trabalhei durante meia dúzia de anos com Alberto Seixas Santos, que coordenava a programação de ficção na RTP. Na época, agendou-se a exibição de O Tubarão para um horário nobre. Anos mais tarde, ao ser retransmitido, o mesmo filme teve início à hora em que terminara quando passou na década de 80. "Televisão generalista" não é um conceito estável. Hoje em dia a televisão generalista caracteriza-se pelo horário nobre e 80 a 90 % deste prime time é preenchido com telenovelas e reality shows. Os impulsos de consumo do nosso tempo excedem o que se passa na televisão, estamos formatados para consumos acidentais e para estímulos rápidos e as questões de natureza económica determinam todas as outras. A arma mais forte dos critérios económicos são as audiências. É uma arma perigosa, quando gerida por economistas e gestores, fazendo dela uma utilização chantagista, que confunde o índice de audiências com o gosto das audiências. A gestão das televisões nos prime times é uma gestão por impulso, feita com base em critérios económicos.
A história da democracia ensinou-nos a ter alguma prudência em relação ao que é quantitivamente maior. Foi em nome da quantificação que se impôs a novela como modelo narrativo dominante da sociedade portuguesa. E quando se faz cultura com telenovela e reality shows, veiculam-se valores culturais muito fortes e de modo sistemático. A cultura começa precisamente onde está a maior quantidade de pessoas.
No Campeonato Europeu de Futebol gastaram-se 645 milhões de euros para construir 10 estádios de futebol. Discute-se muito pouco o que isto significa em termos culturais: à média actual de custos de produção, faziam-se 1000 longas-metragens com este dinheiro. Estão cem anos de cinema português enterrados em cimento em dez estádios de futebol e isto tem um significado cultural incontornável.
A televisão do Estado é uma questão em aberto, sem solução. Para um papel da televisão do Estado como alternativa era preciso uma opção política de fundo. A classe política não se interessa por essas questões e precisa da televisão como tribuna. Era bom saber até que ponto os valores inculcados pela televisão vão ser discutidos na campanha para a Presidência da República. Provavelmente não serão discutidos, o que é mais uma prova de indiferença em relação à vida cultural do país que passa por aí, pela televisão.»
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